sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Para mim, para qualquer um

Melhor que pensem que me assusto com qualquer coisa.
Como poderia explicar-me se percebessem que me assusto com eles/elas próprios(as)?
Como ensinar japonês para ocidentais?
Ou, como compreender a linearidade das letras ao longo das frases, a ligação das palavras,
quando é possível compreender separadamente quanto cada palavra pode ser terrível?
Eu posso ser o maluco da vez,
mas não sou eu quem diz coisas sem significá-las.
É, sim, permitido, lançar ao vento certas palavras
Agora, eu realmente não sei por quê fazê-lo.
Será possível que quem o faz ainda não sofreu o suficiente, no vazio da alma, para perceber que não expressam o que dizem amistosamente?

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

A família humana

Ser livre para fazer o que queremos, é fácil
é a primeira coisa com que nos preocupamos
Agora, ser livre para não fazer o que não queríamos em princípio
requer vocação para Cristo
Demanda ser marginal ao próprio sangue para sempre
Implica em tornar as coisas um pouco mais complexas
Em deixar perguntas sem respostas
Manter-se sereno diante da lógica
E cada vez mais tomar distância
- já não posso mais ver onde era aquele porto
ou o que era
Nem por que preocupa-se o farol em não me dar sinais
que por mim próprio, posso desconsiderar
É um grande mistério
por que a gentileza pluraliza o sentido que criamos

sábado, 25 de dezembro de 2010

É Brasil

Minha alma só se remexe quando ouço samba
em outros momentos a percebo
mas ela só ilustra um swing quando é samba
um coro de vozes do Terceiro Mundo me chacoalha
a percussão duma nação feliz sem gravata me move
essa música é o próprio viver
suas histórias são a minha história
sou negro – ou quero ser
viva o morro!
País amado, não me mande embora!
Neomuçulmano, não, mestiço, sois
Viva o Brasil, país de pais brancos
de filhos morenos
viva a América Latina
De índios, negros e frescos
Agora, sou sindicalizado vacinado contra reaças
Celebro a macumba sobre o eurocentrismo
Vivo sozinho
Não tem problema!

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

(Des)governo

A voz é desumana
A música não tem alma
Nem o instrumento ou o ser
As conversas são rugidos
as palavras, pingos líquidos
as maneiras são mangueiras
o sentimento, a bolsa de soro
colocada lado a cama
por uma enfermeira distraída
Aos lábios lhe escapa a voz
dos olhos se projeta o delírio
O violão persegue a música
O sujeito sai fora de si
E a ponte da loucura
erguida sob pilares avessos do inferno
é construída

sábado, 18 de dezembro de 2010

Dos males, o menor

A quem eu mais agradeço são aos que me esqueceram sem fazer-me mal algum.
Como é difícil ser deixado pra trás sem uma injúria que dê algum impulso a terceiros!

Pouco de otimismo para variar

Vida é um acúmulo inescrupuloso de insatisfação
Quisera morder a mão dos pais
E dar uma chinelada nas vozes consoladoras
O pescoço é o ouvido do coração
Depósito de mendicância, ó minhas coleções
Quem sente teu cheiro, diz que tens valor
Encanta minha noite com o sereno a me cobrir as narinas
Sou ator, não joalheiro
Por isso, depois da apresentação
o que vale é um sono sem sonhos
Não um dia de consertos
Ó relógios, ó clientes, que sono profundo não é mais bem-vindo?

Direto do arquivo

Por que eu deveria me sentir estranho por não abraçá-la?
Eu recebo os sinais vindo até mim
Não deveria agir como se houvesse uma distância entre mim e o aparelho
Entre eu e a pessoa
Quase me sinto um empregado a pensar que deveria atender
Deveria funcionar como uma loja
Incapaz de dizer que estamos fechados por um dia, um mês, um ano
Que as coisas, a forma como elas funcionam, não podem ser previstas
Nem serão, eu garanto
Que eu nunca dei garantias quando aceitava o que me ofereciam
Eu jamais formalizei qualquer pacto
Nem mantive distância
Estou onde deveria
Sem estar de prontidão ou prestes a alugar minha mente como uma vaga no estacionamento
Ocupo-me com o que é próprio
Não substituí ninguém
Muito pelo contrário, nesse sentido sinto falta do material
Coisas ordinárias, posições de prestígio
Uma titulação a me preceder
No entanto, me sinto a dever explicações
E pior – numa futura situação de encontro, uma coincidência
Prevejo a necessidade de preencher ou corresponder com uma impressão de outrem
Ilustrando certo constrangimento, embaraço
Com o dever de reunir certa dose de irreverência
Para que não pensem que fazemos pouco, jamais
E que estamos onde devíamos desde sempre -
embora isso não seja verdade
Sempre prontos a fisgar o anzol
Como se vivêssemos num açude
E eu sinto que devia me sentir mal -
embora não me sinta assim
Mesmo que eu ainda tenha que situar as pessoas
Mais ou menos próximo de onde elas esperam que eu esteja
Sob a pena terrível – capaz de impor sanções
De ser qualificado pejorativamente por inúmeros adjetivos
Cuja acertividade da escolha
É inquestionavelmente compartilhada
E, grosseiramente – evidente
Demandando castigos adicionais
Medidas de disciplina supostamente ainda não tomadas -
a conclusão comum é vista como reflexão, não ação
De forma a reagir e fazer justiça
A quem está em crédito ou débito
Buscando algum equilíbrio compreensivo entre as partes desencontradas
Quando isso deverá – na maioria das vezes – ser tão pouco razoável
Causando dor na carne de certo alguém
Cuja flexão imposta – merecidamente, pasmem!
Despertará um sentimento de compaixão
Sedimentando, assim, um terreno apropriado para que todos possam se redimir
Debochadamente
A mentira me inspira!

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Negócio

Eu, hoje, não sou mais um homem.
O sistema passou pela minha vida como um rio
e meu coração se deixou levar
não abro loja, sala, consultório
meu estabelecimento pulsa
o carro doa sangue, sou proprietário
dentre patrão e escravo de mim mesmo
escondo-me por detrás desse esforço
qual a religião e sua moral
entre os fundamentos da economia global
e há quem ore por tanta miséria
é dia de carnaval
os liberais não devem existir fora de mim
só em mim pode viver o fascismo
vamos nos comportar mal, sim?
Vi A Profecia, filme ordinário
E nele, a alegoria de um novo aeon
Devemos temer, não tenham coragem
Vamos garantir o emprego do panfleteiro
E a pulsação de meu empreendimento

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Cavalleria Rusticana

O tempo nos deixa conversando sozinhos
na solidão sob uma pesada pedra
mas ainda há vida
ainda é vida
assim que essas notas e o vento toquem outro rosto
nenhuma perda senão uma própria
o mundo ainda é completo
nada se perdeu
de tudo se abriu mão
tudo que nunca se teve
eu talvez não tivesse entendido
mas agora que tudo seguiu
não consigo sentir qualquer remorso
eu não deveria resistir
as folhas seguem seu caminho rolando pelo chão
o outono as destrói, despedaça, deixa-as livres
a primavera as prende, dando-lhes beleza, são novas
estações tornam grisalha minha barba
minha natureza
rezo do meu ateísmo por estes anos
por esse revestimento
cujo vazo não é regado por ninguém
cujo ano em que passam as estações, é único, finda só
Dá-me anos! tira minha juventude!
canta meu coração
diz o tempo que não encurta celebração,
nem encurta ruína
termina
como desejo e anseio
por ser velho
é o luxo de não ter mais brinquedo algum a ser retirado
a esperança de que todas as dores tenham sido suficientes
quando ainda pode e dói tanto estar aqui
e que ainda custe tanto esforço
fazer com que tudo seja tão leve
leve como uma concha
como uma rosa
uma sinfonia

domingo, 8 de agosto de 2010

Você tem mesmo muita coragem

Você tem mesmo muita coragem
De tornar os ‘orelhões’ da cidade, impotentes
Parece que você não pode ser encontrada
Nem dentro de uma revista
Ou de um Castelo Branco
Onde certos atos podem fechar um parlamento
Você tem mesmo muita coragem
De dar por sentado a alguém que não lhe conhece
E de testar minha paciência
Com o que terceiros obtém em dois minutos
No velho-oeste, se delega uma cidade
Pondo uma estrela no peito de alguém
Você tem mesmo muita coragem
De supor que com uma bala
Eu não lhe arranque tão belo acessório do peito
Bandido, que sou

Então

Se eu preciso que diga o meu nome para ser um sujeito
Diante do seu silêncio, a porta me chama
Até você está com o demônio.

sábado, 7 de agosto de 2010

Paciência

Sem luz
Não há luz
Ser contemplado
Pelo que há desde sempre
Qual criamos consórcios, tempo depois
Amo a gratuidade das coisas da vida
Mas mais ainda o tédio de dois esfarrapados
Tornando o mundo menos miserável
Sou desgraçado
Toda graça é fumada em cigarrilhas
Sou a escuridão
Detesto esse bom-mocismo pseudo-anacrônico
Não estou na moda
Ando pelas cercanias
Mas não dizem por onde tenho andado
Quem usa sapatos tão belos
E passa o rodo no consultório
Tão logo deixemos o estabelecimento
Não somos doentes
Mas levamos conosco nossa porcaria
Nos são humanistas
Atendem a um dever moral
E recebem o reconhecimento que negam
Demandam todo esforço possível
E não satisfazem uma curiosidade
Externam a boa intenção a qualquer custo
E a isso não se solicita que tudo seja relevado
Pois entendemos tudo que é extra-conjugal
Como um bando de ordinários
Aposto na humanidade sobre a técnica
Não sou o santo a quem se jurou silêncio
Nem respeito qualquer profissão –
Eu, que sobrevivo a tantas virtudes.

domingo, 25 de julho de 2010

(1)

Se você está cansado e bebe para não fazer o almoço
E quando acordou sentiu um frio vindo pela porta
Após não encontrar os chinelos
Sempre há um bichano deitado sobre a sua jaqueta
Quando de ressaca você sem olhar o relógio
Levanta no frio doido para ir ao banheiro
Você levanta a tampa do vaso e nem urinou
Mas o mal cheiro já chegou ao seu nariz
E dá a descarga e esse é o seu último compromisso
Bem, agora você tem uma caverna
Insuficientemente suja para limpar
E você não quer sair para nadar pois o rio está imundo
Nem deseja que alguém o visite
E por isso você nunca dá o seu endereço
Por essa situação você sempre esperou
E agora então você pode celebrar
Sem os mosquitos que você nunca vê
Ouça, aqui há um telefone e ele tem um número
Mas ele só serve para ligar
Pois mesmo nunca tendo para onde ir
Eu sempre digo que nunca estou em casa
Não querendo parecer hostil
E sem fazer muito esforço para evitar
Isso não lhe é estranhamente familiar
Seu filho de ninguém?
Ah, mas eles são mesmo uns queridos
E eu sei que você nunca faria nada para magoá-los
Enquanto você tem a si mesma para fazer isso
E eles planejam a aposentadoria em algum lugar exótico
Ansiosos pelo dia que você vai embora
Quando até o momento sempre lhe deram tão pouco
E você não consegue encontrar os próprios joelhos
Nem enxerga muito bem
No dia que você acha que finalmente irão lhe compensar
E eles não são ricos o suficiente para alugar uma suíte
Numa cabana de madeira no interior
Enquanto carregam uma trouxa num pedaço de pau
Tendo que entender que estão vivendo ou morrendo
Quando você continua insatisfeito com o que lhe foi dado
E o exército da salvação não precisa de ninguém
Para libertar nenhum território, nem alimentar nenhum faminto
Pois, então, erradicamos a fome do mundo
Ao mesmo tempo em que você continua sentado na mesa
Ou até mesmo se levanta diante da espera
Mas todos perambulam em volta de uma mesma churrasqueira
Enquanto você se esforça por parecer animado
Pois este é o seu programa favorito
E você não o assistiu nenhuma vez...nessa semana
E não importa a cultura, tampouco as pessoas
Ou o fato delas terem passado a vida distante de algo
Quando tudo isso não diz respeito a um lugar
Que você pensa que não deveria ter ido
E você se arrepende e bebe tanto quando pode
Se você ainda pode sair de lá dirigindo
Errando as marchas do carro ou da motocicleta
Até encontrar alguma casa com a luz vermelha na frente
Onde tocam uma música que lembra de Goiânia
Ou de algum lugar que você nunca foi
E então você se sente em casa
Pois os cinzeiros estão cheios dos cigarros
Que você um dia deixou de fumar
Mas nem todos tentam parecer agradáveis
Quando o negócio retorna como a prova de sinceridade
Que você terá durante todo um mês
Pelo que pagar e você pode se deixar enganar
Se não quiser rir diante de piadas
Sendo que os mesmos pareciam se divertir com as suas
E você deva retribuir com gargalhadas sempre que puder
Mesmo que você não ache nada engraçado
E o seu humor apenas seja uma forma de se lamentar
Diante de pessoas que nunca o compreenderam
E riem diante de algo que nem você faz questão de falar
Sentindo vontade de ir embora
Pois por mais estranho que pareça
Não reconhece irmão ou irmã
Tampouco se vê obrigado a reagir
Quando se sente tão miserável
E há interesse de procurar algo em algum outro lugar
Toda vez que você não encontra algo que não estava procurando.

sábado, 24 de julho de 2010

Olhos que são vistos, olhos que te vêem. Você, que não é invisível.

A quem gosta de voar
E obter respostas sem perguntar
Tentando fazer falar
Aprende comigo a interrogar
A quem silencia e esta é sua móvel
Nuvem de fumaça onde se esconde
Esperando que conte ou revele
Mostrando o interruptor –
A quem até, às vezes, enxerga no escuro –
Quando as luzes estão acesas
E espera ouvir dizer
Sem perguntar
O que quer que eu possa pensar
E não há nada a dizer
Quando você entende mas não pergunta
Como um aluno retraído
Com um caderno em branco sobre a mesa
E uma pasta cheia de textos na mochila
Eu tenho aprendido tanta coisa
Mas é tão irritante quando já é difícil
Ao outro fingir que não te acham previsível
Sempre alertas na pertinência dos seus dejà vú’s
Quando se esforçam por parecer interessados
Por o que não tive a intenção de dizer
E eu preciso discordar, então, inseguro e surpreso
Do que não disse ou pensei –
Como se eu precisasse de algo mais
Para ocupar a minha cabeça.
“Mas é justamente aí minha abordagem” –
“Disse, pensei?”
“O que quer que possa querer, mesmo que não consinta,
contanto que não me devolva, se me permite prosseguir (...)” –
Não me revolto contra a estupidez, nem aponto deslize –
“Ó, quanta fidalguia de um proletário!” –
Parecendo me armar até os dentes –
“Você está enganado. E está armado.” –
Me calo – e essa, agora, é sua única certeza
Pois mesmo com toda esperança
Estive desde o início pensando sozinho
E não tendo nada a dizer
Logo depois de tê-lo mal conseguido
Fico invisível por acidente
Diante de quem se dedica tão arduamente
Por fazer o mesmo no exercício de um cargo
Para ouvir dizer
Ou permitir pensar alto
Quem está por trás das próprias palavras
Quando você apenas precisa de um pouco de ajuda
Para achar o caminho de casa
E olha por todo o lado e só o caminho, vê
Só o caminho, só
E o seu gosto ou opinião não são suficientes
Para você fazer o que bem entende
Se as suas doenças não são rigorosas o bastante
Enquanto você pode se medicar
E isso tudo acontece quando você conserva a língua
Do próprio senso crítico ou discernimento
Mas se queima comendo algo e ouve o próprio grito
Ao invés de ficar vermelho, sentado na mesa
Quando o crítico dá de ombros: “merda!”
Você não se desculpa e segue em frente
Pois não escapa de si, mas de outros
Ah, estou ficando invisível, sou incorrigível,
“Lá, vou eu! Lá, vou eu!”
Você ouve da minha voz, aqui
E é tudo tão bonito mas ninguém –
Mesmo fora daqui – têm o suficiente
Pois são muitos pôres-do-sol para contemplar
É impossível não ser feliz sozinho
Ou a felicidade é impossível.

(4)

Eu acho que também já quis cair fora
Acho que já teve certos sonhos
Quando “esperar” era-lhe tão somente viver
Onde você já estava
Você fez a sua escolha muito bem
E eu posso ver o quanto isso deu certo
Eu já fiz a minha
Por que deveria perseverar onde envelheço
Se posso ser sustentado como aqui em outro lugar?
Como se permanecer não fosse condição de patrocinadores
É adulto ser sustentado em um lugar e em outro, não?
Justifica tudo a crença de estar fazendo a coisa certa?
Dá segurança que minha única alternativa sejam dois idiotas?
Tenho escolha para perguntar o que é pior?
Melhor, tenho algum opção que não seja inglória?
Antes, conheço alguma mulher sem vocação para a maternidade?
Quantas mães, quantos lares!
Viver é indigno, vivo enjoado
Não inventaram o dinheiro
O Rei não nasceu para dar rosto a moeda
O que me tornei, não existe
É possível apenas fazer parecido
Ser é estar a serviço do aço como pedra que afia
Navio que frustra quando navega
E onde se deposita alguma esperança
Só se herda a miséria
De não possuir um manual de instrução
Ou ser usado de forma imprópria
Houvesse pólvora, houvesse canhão
Se não se pode construir um mundo
Destruí-lo, ao menos desumaniza
Viva a guerra! Glória aos tanques!
Às armas e às baionetas!

(3)

Quem disse que sei quem sou?
Que onde é quando é o quê?
Onde o quê é quando?

(2)

Quem se importa com o que quer que seja?
Que são as orações?!
Eu sou o telefone!

(1)

vamos fugir juntos
seu corpo como guarda-sol de tudo que me falta
dinheiro, moradia, água, comida
mas que conforto será esse, que fim adequado!
nós dois, e um ao outro
e ao invés do céu ao alto
tua carne, minha noite estrelada
nem carro, nem gente, nem areia da praia
na vida sem fim
dos toques e trocas dos apaixonados

sábado, 3 de julho de 2010

Tericeira Obrigação

Tenho alguém para matar
Tirar a própria vida é um não-ser
Uma negação, uma pegadinha das palavras
Que só a elas, faz rir
Não se torna suicida alguém
Como uma criança que se torna moço
O assassino é um materialista
Um agente objetivo, um realizador determinado
Não lhe tirarão jamais a razão
Embora tenha ele tirado a própria vida
- assim diremos – nós poderíamos tirá-la também
Mas a razoabilidade do ato da decisão
Não pode tirar, aquele que homicida pode se tornar
Assim, os ajudantes não têm nada a oferecer
Pois não convencem sequer a si próprios
De que viver, é melhor.

Segunda Obrigação

Interior é o corpo
A Alma está no lado de fora
O corpo invade a clara
E revela gema que sempre foi
A clara não mira mais em si
A gema é uma coisa muito frágil, muito delicada
Não é hora das mãos colocarem uma estaca no coração
É hora do coração eletrificar a caneta

Primeira Obrigação

Até o presente momento
Teremos escolhido apanhar
Sabe-se lá quanto de nós entendemos
Não me alimento melhor do que socializo
Ando farto por todo lugar
Duvido das escolhas do passado
Acho coragem uma burrice
E cheguei ao mundo num berço insuportável
Logo, acredito na vida como num pé de coelho
Joguei meu trevo de quatro folhas numa carteira nova
E adoro viver empoeirado
Mais, mais, mais....
Malditos gatos, maldito trabalho, malditos dias
E até mais ver morte em sonhos, acordado

terça-feira, 27 de abril de 2010

Minha carta de Kafka

Eu não gostaria de estar em sua pele
Você andou por todos os lugares
Experimentou todas as bebidas
Era o maioral quando todos estavam por baixo
Você viajou bastante e conheceu lugares
Até me arrisco a dizer, seduziu belas moças
Mas nem sua mãe acredita em você

Você procurou saber o que era bom
Não desperdiçou nenhuma oportunidade
Você se manteve sempre por cima
Mesmo quando eram outros que tinham que ir para baixo em seu lugar
Você ousou aproveitar-se de tudo
E no fim das contas, desrespeitou as regras do jogo

Quando embasado em diversas leis
Nunca era o bastante o que você podia fazer
E você sabia levar cada uma delas ao limite
E então você perdeu o seu filho e nem viu
Como pior aluno da classe, você pouco ou nada, aprendeu,
Você se vestia com as melhores roupas
E todos gostavam da sua aparência

Com belos carros você sonhava,
E sabemos como você fazia o necessário para conseguí-los
Com grandes negócios, você se via envolvido
E um quarto de 3mX4m é a sua realidade
Nem um ajudante, você tem
Você queria saber falar inglês, mas nunca frequentou uma aula
Os outros sempre foram os culpados por não realizarem os seus sonhos
E isso sempre lhe foi insuportável

Agora, você pode entender como é ser um tirano
Sem filho, mãe ou mulher, você não tem mais ninguém,
Seu irmão foi embora e lhe telefona uma vez a cada dois meses
Amigos, só lhe restam os de muita paciência sem dinheiro para cerveja
Decadentes figuras de bares de rodoviária

Você desceu a lomba e ainda não verificou os freios
Hoje, você não tem atrás de quem se esconder
Como um desgraçado andando pelas ruas
Se a luz do sol lhe dizer que você não vale nada
E entre suas coleções, você não encontrar o que precisa
A rua sempre será um espaço livre para mendigar e esperar
Dependendo da boa vontade dos transeuntes
Quando você precisa de algo tão desesperadamente.

domingo, 4 de abril de 2010

Ma

A cabeça, por si, era um envelope de carta,
tinha todos os selos e vivia extraviada,
eu sou poeta, eu vejo,
batiza esse neném

segunda-feira, 29 de março de 2010

Título

Preciso ser honesto com a verdade inventada
Inventada sinceridade, franca, feita como brinquedo
das rodas de plástico, do corpo de madeira, dos eixos de ferro
amarrado a uma linha qualquer
brinquedo doado, depois de reformado, quebrado, e comprado
brinquedo meu, das travessuras inesquecíveis
das linhas retas, dos verbos imprecisos
do que brincam as mãos que te adoram?
Defendem e não soltam, a tomam
na pena que faz dançar, que ouve a música
mas não diz nada

segunda-feira, 22 de março de 2010

Coração Vagabundo

Descobri, ou reconheço, pela primeira vez.
Sou barato. Tenho valor, mas insisto, por instinto, sem aumento de receitas, em fazer liquidação.
Eu prometo que pedirei divórcio do meu coração.
Devo começar a distrair esse colecionador, para circular livremente, ver e sorrir.
Não posso crer no coração que guarda, por hábito, o que não precisa de espaço, mas alegria.
Encolhe-te, pequeno coração, e encontra o teu lugar, apertado no meio do meu peito.
Tu guardas e retém o mundo, mas a minha ternura te escapa, devagar, como uma música que se desenlaça e pacifica, onde vê, ouve, sente e reside, o meu ser.
A partir de hoje, tu somente baterás, recolhido, e eu, entenderei.
Assim, te darei tudo que guarda, sem possuir.
Pobre e incapaz, coração, que tanto precisa de mim, como criança que pede, insiste e incomoda, obsessiva e implicantemente, vinte e quatro horas por dia, em minhas tardes, minhas noites, quando durmo, e minhas manhãs.
Chega a hora de acalmá-lo, coração, e retirar-lhe todas as tarefas que assumistes consigo.
É chegada a hora dos homens falarem com os próprios corações.
Meu coração é querido, pela primeira vez.
Finalmente, tendo me tornado independente, se acaricia, me mostrando onde está.
E dá adeus, me liberta e se liberta, de mim.
Homem tornou-se, o menino, para não mais pedir licença ao coração.
Meu coração me deixa. E eu deixo o meu coração.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O dono da padaria

J’haverei destilado minha seiva nos magníficos tonéis de carvalho
Escorrem, por tua fábrica, os brios que causaram esta transformação
Além dum mago e dum feiticeiro, anda hoje pelas ruas, um alquimista, um boticário tranqüilo e um pajé urbano, estudando a língua como um confeiteiro, e distribuindo doces por aí.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Virascer

Virascer
Virascei
Que virassó
Virascer
Virassó
Que virascerei
Virascendo
Virascer
Virasol
Que Virassou
Virassó-sei
Virascer
Que virassó
Virasei-só
Que virascerei
Virascer
Viralatei
Virascereno
Que virassó
Virascei

domingo, 17 de janeiro de 2010

Matar na crocodilagem

Agora, eu sou
Juca Malvado
Terror das currutelas
E Barão da Ralé
O malandro
Está de volta

domingo, 10 de janeiro de 2010

Forma e Conteúdo

Não tenho a menor sensibilidade
Sou, na melhor das hipóteses, um cupim
Um cupim dispondo de anos
Um destruidor insaciável
Cabeça minha de madeira solta farelos
Aumento os buracos de tamanho, adianto o serviço
Ganho desenvoltura, fico descolado
Um dia, como uma escultura saída de um bloco de mármore
Saio andando por aí
Até lá, sigo trabalhando na madeira destruindo a vilania e o roubo que é o conteúdo
Chegará o tempo de viver a imaginação da forma
Na forma da imaginação.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Antes de Apolo 1

A terra não gira, não foge do sol, não se oculta
A escuridão invade todos os espaços por um simples motivo:
À noite, nós, bem vagabundos, vivemos acima da velocidade da luz
Ela não nos toca. Nós não a vemos, como ninguém mais vê, hoje em dia, um pôr do sol.
O que eu disse é tudo verdade – podem acreditar.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

O Castelo

Como a mente doente que defende a consciência da insanidade,
faço movimentos repetitivos com algo que deixa rastro
e me aconselho em palavras com os trajes da minha intenção
me olho no espelho, procuro usar estas roupas com elegância
reconheço a minha grossura, mas as lojas têm todos os tecidos
Pronuncio minhas cuecas.
Este texto é apenas o caminho de João e Maria.
As letras e palavras que contemplo, nem isso.
Só migalhas de pão.

Marta

Ela era uma mulher com tudo que queria na mão
como se de todos os fios de seu cabelo, se tratasse
na outra mão, esta bela mulher, tinha um rabicó
Ela tinha tudo. Eu fiz uma bobagem
Ela continua tendo tudo, já deve ter prendido o cabelo.
Como um fio de cabelo arrepiado, não fiquei de fora ou fui arrancado.
Não, caí. Caí, inevitavelmente, numa piscina térmica de lágrimas e mergulhei
buscando o conforto frente aos frios dias da vida
Não sentia frio ao lado dela, mas batia queixo antes de me separar
Este banho era só para mim
Mas agora ele acabou, eu já estou seco
E retorno ao ponto de partida, com uma chance a menos
Eu podia ter descoberto o amor
Mas eu tinha de ir para o inferno!

domingo, 20 de dezembro de 2009

O Imã e a geladeira

Existe um tipo de insanidade nua aos olhos
a insanidade de um imã de geladeira
o jogo inverso de um observador do ser compelido
devolvendo-o a uma realidade distante e segura
daqueles que agem em nome de quem não se faz presente
a fúria que pede silêncio diante do primeiro esclarecimento
a interrupção sem sentido da voz da altivez
a calar e deixar tagarelar qualquer falta de sensibilidade
diante de olhos e longe de ouvidos que percebem
uma besta manca que decora como bibelô, sutilmente
um bolo de aniversário

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Portfólio

Já até ensinei crocodilo a nadar, cobra a rastejar e vampiro a desaparecer na frente do espelho. É tudo curso dado.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Distração

Têm dias que a vida me é a tão nojenta
Que só bêbado consigo chegar ao dia seguinte
Sinto vontade de iniciar uma greve de fome
De rasgar dinheiro
E no entanto, não devo fazer nem uma coisa, nem outra
Ao contrário de todo protesto diante da insatisfação, não devo fazer nada
Para não fazer nada, devo concordar que esta é a minha prática.
Que será, principalmente
Tudo deve permanecer do mesmo jeito
E essa agressão, que chamam bom senso, é a que devo cometer contra mim mesmo toda segunda feira
Quase me convenço da importância teórica do trabalho braçal
Quase.
Escrevo ainda. Não estou tão distraído.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Compras

Adorável tarde de sol
Dos curtos trajes de verão
Na rua há menos poeira do que em casa
Mas ninguém, mesmo que assim
Leva o travesseiro embaixo do braço para passear
É a mim sugerido quanto ao meu temperamento
A abertura e certo desprendimento
O limite é não agir de acordo com o que se diz
Dormir na rua é um erro de suposição
E a moradia, a privada onde damos sempre a descarga
Nós podemos ir ao supermercado
Ou iniciar uma greve de fome

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Desculpe

Eu não sou cruel, mas você é inteligente

Mototurismo

Cedo acordo e me lanço sob a barraca desarmada da noite
Voa o vento ao meu redor, sentado sobre um cavalo de braços e pernas, fundidos
Tricoto em meio às velozes caixas ambulantes sobre os pontos feitos na cabeça de nossa mãe
Elas param e eu sigo, frágil e voraz, observando ao tempo que me apresenta a humanidade dos barulhentos motores dos grandes caminhões
Monstros que ultrapasso, sem medo, como faz o passageiro passando pela catraca de um coletivo.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Sobra só o macaco

A humanidade é uma lente nos olhos de um macaco
Quem já tirou esses óculos não se engana
Não cremos em palavras embaralhadas
E no fim das contas, apenas não enxergamos mais.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Calor do sol como contracheque

Não carrego nada senão os raios que me batem no rosto
Ponho no rosto os óculos
Os venderia se não tivesse de repassar o dinheiro a terceiros
Vomitaria o almoço por um pouco de conforto

Sobre mim uma resistência apenas
Diante de um ar seco e abafado
Ando na rua sem nem um telhado que me pertença
Tudo me é emprestado, nem roupa própria possuo

Essas, aliás, não as devolvo
Arriscasse eu a enfrentar a vergonha de andar nu pelas cidades
Detido seria por atentado violento ao pudor
Só então iria para o lugar certo

Um vagabundo profissional tirando curso superior
Uma dona de casa capacitada a análise fílmica, assistindo novela
Um eqüino batizado e de sobrenome reconhecido
Uma aposta de dois infelizes entediados na praça pública

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Eu disse. O poeta, viu.

Sem-terra não tem onde cair morto
Cidadão de bem tem o cartório
Eu disse. O poeta, viu.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

we barried sun

Nós enterramos o sol sob a escuridão sobre nossas cabeças
Meus pés tocam a superfície de uma piscina coberta
Vôo, mas acho que nado
"Pai, o vento no rosto é sonho, sabia?"

domingo, 20 de setembro de 2009

Outra

A vida é uma bobagem.
Os super-mercados são a maior prova disso.
Só passar pela seção de congelados.
É uma bobagem, não importa o que digam em outros lugares.
É evidência, estamos de acordo com isso, que a vida é uma bobagem.
Tô até querendo me livrar da minha: pela popularização da eutanásia!
Pelos direitos trabalhistas dos encapuzados!
Enfim a liberdade de escolher! Livre enfim! Livre enfim!
É muita palhaçada!

Distração, que chamam “coragem”

É assim que a minha mente me engana e trapaceia.
Do desejo da eutanásia, imaginei botas natalinas sobre a lareira
E enfiada numa delas, uma seringa, com somente o “Eu”, escrito.
“Eu” de “para mim”, de “eu” mesmo e de “eutanásia”, sugestivamente.
Imaginado, meu impulso é pintar a imagem.
Sou levado a procurar uma tela usada de que não goste
E antes que perceba, fui enganado, trapaceado.
Queria eu a eutanásia, mas me vi sendo levado a pintar.
Não o fiz. Sabia muito bem o que queria.
Pintar e verbalizar é a manutenção de uma condição indesejável.
Restasse a mim um pingo de inteligência!
Escrever é uma m-e-r-d-a.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Fiquemos sozinhos um pouco

Há algum tipo de consolo que somente a escuridão sem estrelas do céu negro da noite oferece
Meu coração se lamenta e chora.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Chove

Deu-se o relâmpago de uma tarde de sol
A tarde da noite durou nem um segundo
Duma madrugada à outra assistindo ao mesmo programa
Sem troca de entrevistado, sem intervalo, sem troca de assunto, sem fome, sem sono
Para trás, a minha consulta, minha reavaliação, pela segunda vez
Reagendar
A chuva que não cessou na tarde breve da noite, nas noites longas dos dias
Escrevo depois da tarde mais curta do mês
A segunda, de seu primeiro dia
A primeira já vista antes duma alvorada
E chove
Chove na madrugada.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Uma nova arte

É preciso aprender com outros aquilo que ninguém lhe ensina: a arte de ser um miserável.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Projeto de homem

Eu sou a missão
Não há cativeiro, nem seqüestradores
Minha prisão é ao ar livre
Que não se confunda com condicional
Durmo com os inocentes, ando com os presos
Sou minoria
Sociólogos escrevem teses resolvendo meus problemas
Sou excluído, valho ouro para os entediados com consciência social
Sou bandeira, abro alas para os engajados do mundo
Sou criança, tenho de comer tudo até limpar o prato
Não tenho mãe, jamais serei pai
Somos todos estranhos andando pela rua
Agrado a um dos transeuntes por toda eternidade
Sou educado
Acho que gentileza é comer além da conta e ficar pesado
Deixo a turma do sopão feliz e continuo sendo bem-vindo
Ai de mim não voltar!
Como se eu não vivesse perto da bacia do rio
Fosse pescador, fosse qualquer coisa
Não, serei engajado, lutarei contra moinhos de vento
Venderei a alma por uma visão
Serei a missão de outros
Inclusão, exclusão, eu ainda não fui incluído
Demando de um número maior de militantes e simpatizantes para requerer incentivo
Não me tornei próspero, sou vítima do sistema
Cá estou eu, amigos, com esperança de me desenvolver como humano
Longe da criminalidade e também da prostituição – embora eu já tenha me aventurado
Vendo-me bem, escondo as avarias
Com elas, é outro nível de comprometimento social
Saímos do bifê, vamos às refeições de hospital
Onde se pode experimentar e tomar soro ao mesmo tempo
Percebo minhas roupas, é verde para todo lado e sinto frio na bunda
Engajados do mundo: uní-vos (por mim)
Nos fornos das confeitarias não se pergunta se o pão quer crescer,
Se joga fermento e ponto
Fosse um homem, em lugar da casca grossa do pão, reticências
A impossibilidade da escolha e a certeza da inevitabilidade
Os planos de outrem me incluindo e alcançando
Um conjunto de elementos no quadro negro tornando-se maior
Ser devorado, absorvido, sem dar o grito mudo que atravessa o corpo achando um lugar diferente
O sepultamento de ser acrescido sem distinção
A distancia do homem diante dos olhos do engajado
E a proximidade vista nele da concepção do idealista.

Só na vida

*É preciso fazer justiça à dramaturgia: existem coisas que só acontecem na vida.

Benfeitorias do engajamento

Os suicidas precisam fazer terapia. É importante levar ao divã toda e qualquer suspeita de que até mesmo tudo que é bom, é simplesmente desagradável. É preciso, ao suicida, essa certeza da qual não se pode duvidar. Mais uma força de expressão do vocábulo que inventa a linguagem da vida.
É simplesmente decepcionante dizer qualquer coisa. Seguir adiante nem caracteriza fuga. Importante que não estamos plantados. Sair incomodado é a única resposta, a única alternativa sensata diante da loucura do mundo.
Uma saída ingrata e silenciosa, planejada e inquieta, cheia de ansiedade, de desejo, de libertação. Eu saio, mas quem se ver diante de mim que fique longe da minha cabeça.
O tamanho do mundo e especialmente sua forma, não permite fica suspenso sobre um ponto qual o pêndulo de um relógio.
Enfrentar situações: enfrentar pessoas.
Que se exige de mim! Carregar lembrança do outro para perdoá-lo como se eu mesmo não precisasse me provar a todo momento!
Se exige de mim o dever, não o caráter! Pro inferno com este: tudo pela camaradagem.
Dedicação que tenho e tive, sujeita a uma preguiça de não recomeçar como se eu não estivesse pronto para mais isso. Como se não fosse forte o bastante. Não temo: o fim é onde eu começo!
Tudo passa na minha frente, dou um passo quando quiser, se não, deixo que passe, estou sempre começando. Persevero, de meu passeio, a diversidade do lixo e da santidade. A penosa tarefa da seleção sem término, com quase sempre pouco ou insuficiente gozo, a evaporar qualquer indesejável força de hábito, qualquer iniciativa utilitária ou altruísmo afobado expresso quando não olhamos ou simplesmente ignoramos a vontade de nossos queridos a qual a razoável segurança que nos acometem, permite que realizemos a petulância de presumir sem sondar, esperando pela plena satisfação do estômago de outrem bem como a prontidão da boca a próxima colherada (...) desgraça (...)
Que me hajam cotas!
Eu sou a missão (de outros).

domingo, 26 de julho de 2009

(...) 2

* Como um cachorro escondendo um osso, nós enterramos o sol
Enquanto tivermos a noite, guardaremos o dia para mais tarde.
Uma pena. Cansa ficar sentado tomando soro.

* Nada importavam os outros, segundo ela.
Sem saber o motivo, então, eu recebia aquele jogo de palavras em inglês.
O "so sorry" se metamorfoseava a medida que se aportuguesava.
Houveram duas outras palavras entre a original e a definitiva, que revelou ser "sorri!"
O desenvolvimento registrado a priori ilustrando a origem de uma reação "espontânea".
Ela já estava tão longe, ninguém mais importava, mas de alguma forma, eu ainda era digno daquela generosidade.

sábado, 25 de julho de 2009

(...)

Não sinto falta da minha doença
Mas é preciso reconhecer isso para escrever alguma coisa
Antes seja isso do que possa haver alguma dúvida
Não são mais os sintomas que me fazem empunhar a caneta
Nem há qualquer prazer em ser lido
Fazia-o por questão de sobrevivência
Não se coloca a alma para fora quando se escreve
A alma é a própria tinta colorida no papel, não o que se entende dela
Já a folha é o mundo
Seu tom, textura e peso pouco importam contanto que se possa fixar tinta nela
No caso do mundo, a mim, é estar nele ou no universo
Mas o corpo, isto é, a pele, como a cor da tinta, não é
No papel, a cor do papel é como a cor da tinta
Não importa. Retorna, forma sua subjetividade
E leva essa poesia ao mundo, ao papel
É o mundo e a subjetividade sem o homem
O papel e a tinta sem o escritor
E escrevo para me livrar disso.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

pau brasil

Eu sou Fulano do Universo
para falar comigo, você tem que rezar
Não dou gás para esse fogo

Apesar de adorar pessoas que se colocam na arena e vivem a nos lembrar as regras do combate, renuncio!
Importar é fazer alguém exportador

Minha tia, minha mãe
vão para o inferno, tiram fotografias
Os adornos mais belos do ser com certidão de registro
Levam os coelhos pelas orelhas, morrem afogados
Espalho com o rodo sobre o papel
A podridão do mundo

Sou brasileiro
Do pau brasil só restou a brasa
minha nacionalidade é meu emprego
sou brasileiro
o carvão é minha herança

Descobri minha vocação no canil
distante dos espiritualistas de Três Coroas
catava merda no chão dos cercados
e despejava água sanitária como champagne sobre a pele de cimento
Não precisei meditar
A sintonia entre interior e exterior foi completa e consciente
Não havia risco de perdê-la ou não assimilá-la
300kg de merda compraram minha passagem ao Nirvana
Aperfeiçoar-se é apenas uma forma diferente de retirar de dentro de si toda a merda deste mundo.

domingo, 29 de março de 2009

Sonhei

Enorme vidro de jacarés em conserva no fundo da piscina enquanto mergulho. A tampa se abre.

quarta-feira, 25 de março de 2009

A expectativa das pedras e o inocente olhar do condenado

Nem um rolo de palavras mágicas!
Assim escolhi Pedro para que numa receita de bolo eu quebrasse o seu encanto
Num recorte de curiosidades, indiferente, antecipou-se
Pouco haveria sido, mas não prosseguiu
A expectativa das pedras cercaram-no de atenção
E então, Pedro, sentiu-se a vontade para mergulhar em seu próprio lago
Nenhuma resposta procurava em particular
Apenas concordava em mergulhar e não voltar até achar algo, ilustrando seu silêncio
Mas neste campo de bruxas e pagãos, quem conhece todos encantamentos?
Pedro deitou-se com as palavras e elas germinaram no decoro de sua paciência
A raiva de si mesmo diante das pedras a colorir o seu pesadelo
O verde e rosa, impresso em suas pupilas, sem nunca terem sido carregados
E a fragilidade do sopro em preto e branco da verdade
Ofuscado e calado pela escolha que o relega ao desinteresse
Pedro sentiu vontade de falar e cantar outra coisa
Mas parecia impróprio interromper o deleite dos curiosos
E sua boa vontade encheu-se ainda mais de cólera
Para que existes, Pedro? É preciso coragem diante da vida. Para onde vais tão machucado?
Pedro não respondeu. Não era do seu perfil dizer nada.
Era capaz de andar quando não lhe ajudavam, caminhava pelas ruas pavimentadas
Com um rifle enferrujado de mira torta, pendurado nas costas
Quando aproximava-se de alguma aldeia, então, Pedro, não largava o rifle
Mas aproveitava para acertar o passo e o ritmo da marcha
Ao ser recebido pelos moradores que caminhavam ao seu lado.
Poucos que eram numa vila que terminava no fim da rua, de tempos em tempos
Caminhava Pedro sozinho, ao tentar encontrar a rua sem fim, uma cidade-espetáculo.
Pedro ferido!
Onde?! Alguém poderia ver ou perceber os esparadrapos através de suas calças?
Mancha de sangue escorrendo pelo vazio do silêncio
E a suposição do tiro tomado, sugerido pelas roupas camufladas e o porte do rifle
A desvanecer qualquer indício honroso da hemofilia.

domingo, 22 de março de 2009

Começo, fundo do mar. Meio. Sei lá, porra

E se estivéssemos em meio ao fundo do mar sobre uma bola de sinuca...? Tentaríamos nadar, mas voaríamos. Pensaríamos num cachimbo e veríamos um Magritte.

sexta-feira, 20 de março de 2009

aquilo que sabe lá sei lá-ando

Lua tua, Lua clara
Afunda nua
Na face d'areia movediça

segunda-feira, 9 de março de 2009

Acontece

Me ensinaram a chorar por tristeza
E a gemer quando em agonia
E que tudo que eu desejava
Não me cabia

Ensinaram que o mundo era sério demais
Para ser feliz
E pensei que era eu que não me esforçava
Mas isso não era nada

O mundo se dobrara ao meio
Para nunca mais voltar ao que era antes
Como um menino
Que aprendeu que chorar por tristeza
E a gemer quando em agonia
Era belo e impossível de evitar
Mas você poderia

Acontece que agora eu descobri um caminho
Que eu podia mudar as palavras e o que sentia
A tristeza que um dia me fizera chorar
A alegria a fazer o mesmo retornar
E o gemido do nosso prazer a espantar a agonia

Chore na cama sempre que puder de prazer e de alegria
Porque o mundo inteiro se pudesse, também o faria
Ah, se eu pudesse mudar todo o mundo
Ah, se eu pudesse
Mas não quero, não devo fazê-lo, isso me custaria


*Viva Cartola! (título original de "Acontece")

terça-feira, 3 de março de 2009

frases estupradas

Não existe loucura de linha tão tênue e de fácil dissolução quanto qualquer atividade civilizada.

***

Não se pode culpar as perturbações que enganam como as mais verdadeiras coisas do mundo.

***

Ser o vento dentro de um copo d’água.

***

Outdoors, portas giratórias, que saudade dos ladrões de banco!

***

A comida deu um embrulho no estômago. Pastava há menos de quatro horas. Rumina, então.

Milagre! (da civilização) II

Intransponível retrata melhor a sensação de eterna impotência do insight. Melhor do que "desumanização do espaço por profundidade física do mesmo". A impotência é de ir até onde se finda o espaço, como se ir até a parede, do centro de um lugar, fosse impossível. Mesmo sair deste mesmo lugar fosse da mesma forma. O espaço ganha um relevo arredondado e cheio. Estas coisas inalcansáveis atrás deste espaço instranponível. Há incapacidade de significação. Selva iluminada como meio do mato invadido por raio de sol e verde! Muito verde! Com toda essa natureza abundante, rica, parece haver tão pouco espaço disponível. Insetos, galhos, possíveis lagartos tocando meu semelhante enquanto ele sonha acordado, em pé sobre folhas, delirante, enfeitiçado, sem saber se o que o toca ou anda por si, é carne ou madeira.
Fala (sim, eu sei que ele está falando) o inimaginável (da perspectiva, se me perguntas, coca-cola com azeite de leite de cabra: sentido algum!), o inconsiderável nestas bandas onde toda e qualquer imaginação, invenção, é indesculpável.
Insetos, lagartos, se escondendo sob mexas de seus cabelos?! E tudo numa tranquilidade, uma paz divina que denota a distração quanto a caracterização do cenário que eu vejo e descrevo?! Insetos, répteis, agourando a morte dos urubus em selvagem morbidez. Entro, saio, o que é o quê? Pavor! Observo enquanto devo - adivinho! - numa perspectiva semelhante. Ah, pavor! Pavor! Saiam pragas! Pragas, saiam! Fujo do que e ir para onde se isto é tudo?
Fiasco (...) saio em retirada, gritando talvez, tirando a roupa, certamente, correndo da morte que carrego, dos vermes e insetos que sou moradia.
Pânico! Refresco suas residências! - enquanto o professor acalma os alunos.
Retorno - sem aviso de despejo e sem saber quando a selva me visitará de novo.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Milagre! (da civilização)

Desuminazação do espaço por profundidade intransponível.
Uma selva iluminada!
Milagre sob luzes fluorescentes! Milagre!

domingo, 1 de março de 2009

sobre as estrelas

Quanto aos planetas distantes, estão lá, dou de ombros
flutuo ou esmago meus pés.
Ao escrever bem acomodado diante da mesa
santo, sento e sinto
sobre as estrelas

Album de fotografias

A lápide de meus vinte e três anos
Tanta vida, tanta morte, tanto engano...
e tudo numa fome tão cega, numa intensidade tão louca
para ficar agora diante de sua tumba que com o vigor dos anos
seca e espalha suas flores...
Envelhece no mármore a eterna jovialidade em sua fotografia.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

O crítico/artista

O artista, assim como a crítica, é uma espécie de antropólogo de objetos ainda sem história, mas com valor de natureza idêntica. A subjetividade faz pela obra de arte o que os anos fazem pelas antiguidades, mas ao contrário do tempo necessário de centenas, milhares ou milhões de anos decorridos com a antiguidade, com a obra de arte esse "efeito" - se assim se pode chamar - acontece imediatamente, e já existe antes ainda do artista considerá-la concluída. Logo, toda arte é fundamentalmente ordinária.

A alma e o violão

Conversando com uma evangélica há pouco tempo afirmei ser fervorosamente ateu. Diante de tal perplexidade, ela me perguntou então para onde eu haveria de ir "depois". Apontei para o chão, naturalmente, acrescentando que iria para debaixo da terra se não fosse servido de comida a outros animais. Ela se explicou, reformulando a pergunta, dizendo que o que eu me referia era ao corpo e ela estava perguntando da alma, para onde haveria ela de ir depois. Diante desse dogma me lembrei do meu primeiro violão, o qual, certa vez, segurando pelo braço, destruí ao usá-lo contra a parede como um taco de beisebol, deixando-o em pedaços, mas nunca ninguém me perguntou depois disso para onde teria ido a sua música.

sábado, 17 de janeiro de 2009

De preso a diretor da prisão

Enxugo meu rosto em toalha morna
Xingo meus velhos amigos em filmes sem final
Que hora boa para sobrepor coisas sobre as do fundo do baú antes de jogá-lo da janela
Ninguém há de me condenar o ato
É sempre digna de agradecimento qualquer doação para a construção de calçadas na repartição da prefeitura.
Acho ter descoberto algo. Ah, que ruim amigo, que ruim pra você, que ruim pra toda turma, que ruim pra todo mundo. Acho todas as outras crianças idiotas. Mais ainda, tenho nojo e me engasgo com a ânsia.
Olhar para o chão sempre me remeteu a um passeio pelas montanhas quando tinha um carrinho à mão, após um empurrão.
E dos tijolos formaram-se garagens, paredes e propriedades.
Adão e Marginal não trazem mais o gado pra pastar sob argumento de não-utilização da terra. O lúdico torna perdoável qualquer falta com a gentileza e embora apenas sorria, sujando minhas mãos de barro, verdadeiramente, em nada me importa para onde será conduzida essa tropa de malandros e otários.
Ergui guarnições e enrolo no café o dia inteiro. Não há tiro de advertência pra quem ultrapassa o perímetro. Só na cabeça!

domingo, 11 de janeiro de 2009

...

Levantar pesos: medidas de cálculo e circunferência de bíceps, tríceps e o diabo a quatro. Não é nenhuma excentricidade minha a curiosidade, mas ultimamente indago-me sobre a possibilidade de supor ou fazer um cálculo aproximado da quantidade de ousadia disposta, manifesta e imaginada, a partir de uma ciência consolidada de bem estar, de tal forma a evitar qualquer hesitação ao traduzí-la num sorriso, pela força centrífuga interna de expulsar qualquer possível invasão entre o impulso e a ameaça constante dos que às vezes não vêem o fundo do espelho... na própria superfície.

Agradável surpresa

Eu quero morar num barco! Um veleiro! Meu jardim pode ser uma marina. Vivo na terra! Barco pra quê?! Duas palavras: planeta água. Preciso de uma moto. E de um avião. Um ultraleve. Um anfíbio. Ou se terra então for, um trailer!
Sonhos... estão de volta.

Lâmpada

O homem que se torna pai ou a mulher que se torna mãe, tem sempre potencial natural, no que diz respeito a seus descendentes, para tornar duas existências inúteis. Como se o pai ou a mãe estivessem passeando por um parque com o descendente e tropeçasse numa lâmpada mágica com um gênio dentro e este concedesse a cada um, um único desejo. A criança, pela impaciência e quantidade de sonhos da idade, pede rapidamente para ser líder de uma banda mundialmente famosa, sendo prontamente atendida. O responsável que o acompanha, por não ter imaginado o pedido do descendente e ter ficado um pouco decepcionado, trata logo de concertar o equívoco e pede ao mesmo gênio, como único desejo que tem direito, que o filho ou filha, volte a ser como antes. Atendido, ele espera poder continuar seu passeio tranquilamente.
Está claro que os outros não deveriam, nessa concepção, ter a capacidade de fazer coisas que nós não imaginamos que suas escolhas os levariam a fazer. Que triste visão do outro a impressão de que ele está diante de um jogador trapaceiro que movimenta peças no tabuleiro quando ele está distraído! Cito esse exemplo pois somente isso poderia justificar a insana sensação de direito que tem essa pessoa de retroceder o movimento do outro, causando perplexidade e confusão onde tudo acontece muito tranquilamente, e tornar as coisas no que elas já deixaram de ser, esperando que o outro prossiga dali como se nada tivesse acontecido.
Ora, haja paciência! Não se senta na mesa com esses tipos...

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

(...) II

Tudo é muito mais o que parece do que é possível imaginar.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

(...)

O além é aqui. Nenhum outro lugar.
Olha quem quiser. Não olha quem não quer, sendo olhado.
Paranóia, paranóia...

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

A ponte como diagnóstico

Vejo ao lado da inocência, na ponte da imaginação, a maturidade que me olha e sorri do outro lado. Quanto ficou de ti aí? Depois de enviar-me tantos presentes? Não peso. Ao fazer isso me escapa por momento tua gentileza. Sai de mim a inocência servil. Encontra-se parte dela, do outro lado, e mais longe ainda. Torna poeira e cinzas de defunto. Nenhuma ponte a ser atravessada! Apenas uma ponte vista e nenhuma a ser atravessada. Que maravilha já estar aqui nesse lado! E tampouco a maturidade que brota, me toma e fala por mim, como agora, como a tinta da caneta dirigida pelo jogo do copo. Não necessitar da ponte... isso é novo. Está fresquinho. Aparentemente, pontes são inúteis quando não há vão que as justifique construção.
Gosto deste lado e desejo-o mais ainda. Sinto saudade quando algo me escapa. Para mim, é claro, compreensível, mas quem me ouve dizer ou me lê, como fazer-me claro dizendo que o fato de permanecer no mesmo lado trouxe à realidade todo o benefício que eu imaginei, sonhei e persegui desesperadamente, angustiado com a travessia? A ponte é um sintoma doentil. Como tal, devemos manifestá-lo, não como iniciativa autônoma em relação a algo em particular, mas como um pedido de socorro extremamente discreto, ingênuo. Vai saber... a esperança diz que sempre haverá um médico por perto.

Queima de estoque

A morte do ponto de vista ocidental.
Corpo sobre a mesa com uma etiqueta no dedão do pé qual a última camiseta adquirida na liquidação.
Queimar os corpos até o fim em público, na Índia, como se fosse lenha, sempre será mais digno.

Jamais Vu

A mais bela imagem da manhã. O contrário de um dejà vu.
Ver pela primeira vez!

ser e fazer

Observando pelo viés da beleza da tragédia e da poética da dramaturgia sobre a qual não se tem domínio, minha vida não foi mais difícil do que eu romantizava que fosse. Tenho exatamente aquilo de que necessitava. Não por sentir prazer em sofrer. Mas por ser exatamente aquele que contra tudo isso sempre se opôs. Tornar-se sempre foi apenas um caminho.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Ensaio sobre o belo II

O que chamamos nós de homem permanece tão “louco” para fazer sentido quanto na época pré-histórica cujas escavações já revelaram ossos reunidos, formando um círculo, na tentativa do homem da época de tentar comunicar alguma coisa.

Desde então tivemos uma evolução da tentativa de criar significado. Ainda não somos capazes disso, mas conseguimos criar uma forma de ficarmos diante da falta de significado das coisas que fazemos, e conseguir deixar de olhar para essas coisas.

Era preciso que aquela coisa indefinida que criamos, permitisse que ficássemos satisfeitos em não mais olhar para ela, isto é, seguir adiante e contemplar outras coisas. No entanto, a dificuldade que se apresentava era que isso não era possível pois dada a indefinição da coisa, era necessária a constante observação da mesma de forma ininterrupta pois ela poderia passar a significar algo, de uma hora para outra, quando menos se esperasse. Isso explica reações agressivas do homem da época que o faziam quebrar essas coisas quando da falta de sucesso em conseguir deixar de olhar para a coisa sem que aquilo não mais o intrigasse.

É importante notar que diante de algo que pode “mudar” de uma hora para a outra, sem aviso prévio, isto é, poder significar qualquer coisa mesmo sem ter conseguido isso até o presente momento, gera uma inquietude fulminante no homem que é o observador pois essa leitura atenta o impede de formar qualquer conceito de duração, permanência ou estabilidade acerca da chama da vida de seu próprio ser. Não se tem relevância o passado pois ele está diante de algo potencialmente novo, virgem e se sente medo do futuro, pois o surgimento de um significado desmentiria a sua subjetividade, isto é, o tornaria um objeto.

Com a utilização de linhas, cores, estilos e formas gratuitas de fabricação de todas as coisas, passamos a ter uma leitura do incompreensível diferente de antes. As coisas continuam incompreensíveis – como sempre haverá de ser – entretanto, abstraindo a importância verdadeira desse significado frente a uma possibilidade lúdica, mas mais confortável, como achar algo mais ou menos bonito, sem que haja importância do que essa coisa realmente seja e por quê seja, conseguimos encontrar um novo caminho a seguir, no qual, saber o que são as coisas não mais importa ou, menos importa, do que achá-las mais ou menos belas.

Do “o que é isso” para “é bonito isso”, o homem permitiu-se uma “folga”. E não pode-se culpá-lo por isso pois, aparentemente, esse lhe era o único caminho possível.

Ao poder definir algo como mais ou menos belo, atribuímos a qualidade de sujeito às coisas e, posteriormente, personalidade, em referência à forma e ou estilo, sobre a qual podemos falar a respeito criticamente, estabelecendo comparações. O mais importante dessa etapa é que quando as coisas passam a “ser”, elas, no entendimento do homem, páram de mudar, isto é, não estão mais em transformação – o que não é verdade – , o que acaba por tornar impossível qualquer mudança do seu “significado” desde que se lançou o último olhar sobre ela. Aí então conseguimos estabelecer uma denominação permanente sobre as coisas, de forma que o homem não precisa mais ficar atento a qualquer mudança da mesma pois ela não mais ocorrerá.

Evidente que se a coisa for um prédio, ele está em constante transformação, ininterrupta, mudando e se desgastando de acordo com as condições climáticas, chuva, vento, maresia, etc. Mas essa incompreensível constante mutação é ignorada pois o prédio passa a ser ou estar bonito, limpo, novo, e assim continuará, até que tenham havido tantas mudanças quantas forem necessárias para que ele tenha se tornado, por “eleição”, feio, sujo e velho.

O homem consegue estabelecer um relógio externo a si mesmo que lhe impede de não ver que lhe resta tempo de vida – ou de forma mais desesperadora, que ela não parou de se esvair por um segundo sequer – dada a diversidade presente encontrada nos lares, lojas e ruas.

Vendo-me diante da beleza de um prédio, tenho noção assim como meus contemporâneos, que a minha própria duração deve transcender a de vida do referido prédio. Da mesma forma, deve transcender inúmeras pinturas do mesmo, troca de placas da rua que ele se situa, revestimentos do asfalto, mudanças de lojas com as mais variadas decorações, assim como vestimentas das mais desconhecidas pessoas cujas peças têm uma vida utilitária extremamente curta, numa expectativa de dois a três anos.

Interessante observar que todos esses relógios externos se complementam e acabam por se equivaler pois são trocados, abandonados por novos, assim que “se faz necessário”, de forma que externamente, a duração de uma camiseta, com a regularidade com que é trocada, se equivaleria à duração da reforma de um edifício ou a vida útil de um automóvel.

Cada objeto nos permite ficar sem prestar atenção nele desde a última olhada por um tempo ímpar de cada espécie (material). Mas dada a presença constante da convivência mútua das mais diversas formas e durações, estabelece-se uma “média”. É essa média a responsável final pela capacidade individual do homem de olhar para coisas que ele não entende o que são, sem que isso o remeta a um estágio inicial no qual as coisas são algo que eles não compreendem e que podem passar a significar algo de uma hora para outra. O retorno a esse estágio inicial seria uma incapacidade humana de se “descolar” dos objetos pois colar-se a elas seria a forma de assegurar a própria existência até, pelo menos, o fim da existência do referido objeto, isto é, a sua decomposição.

Não diferente de um objeto, o homem seria nesse sentido algo sem subjetividade. Seria um pedaço de madeira vendo uma folha ou uma pedra se decompondo, sem ter noção exata se aquilo que está diante dos seus olhos duraria um tempo mais longo do que o da própria vida, mas esperançoso, de que não necessite encontrar uma outra coisa para usar como referência por pouca duração da primeira pois isso lhe representaria um caos definitivo.

O belo se torna linguagem. Sua abstração encoraja competições, comparações, preferências, gostos, vontades e subjetividade. Se essa abstração não pode ser mantida por algum motivo e nos vemos de volta a uma fase inicial, é natural que não consigamos sentir vontade, reconhecer gostos, preferências, ver sentido em fazer comparações ou nos engajarmos em competições, pois se trata de um idioma que nós não mais falamos e que, até aquele momento, não sabíamos que era só uma língua. Nos vemos diante de um paradoxo pois no mundo civilizado, entendemos que somos “o que somos”, e que as ferramentas das quais fazemos uso, são apenas coisas que utilizamos, que essa relação com a coisa externa, não traduz por fim quem somos ou escolhemos ser, mas são apenas coisas que utilizamos – o que se revela por um lado um equívoco, deixa claro por outro que não sabemos o que significa ser ou que extensão “ser”, representa.

Nesse sentido, ser indiferente ao belo, demonstra um certo desconhecimento ou ignorância, pois significa ser indiferente a uma parte inimaginavelmente indispensável de quem se é e da qual não se deseja abrir mão. Assim, o belo se afirma não como a construção da civilização, mas como ela própria.

Ensaio sobre o belo I

A beleza é a prova material de nossa insanidade. O produto beleza é ainda a loucura humana por fazer sentido qual quando nossos ancestrais faziam círculos com ossos de animais sem saber o que eles representavam.
Como uma mensagem, a beleza é dirigida a outrem a partir das referências de agradável e equilíbrio de quem a constitui. Por outro lado, a não contemplação deste belo, o torna o resultado de um ato insano por parte de seu idealizador. Como o “agradável” preenche qualquer lacuna de falta de sentido filosófico, a beleza é a ciência de que não é importante saber do que estamos diante, desde que este enfrentamento nos seja encarado, mais ou menos apreciado, e ignorado. A beleza – o belo – é uma forma aceita de falta de sentido e que a partir da sua presença na sua construção, tentou-se fazer/criar sentido e não se conseguiu.
O belo acaba com a inquietação oriunda da incapacidade de fazer sentido. O belo existe para que o homem possa desviar os olhos das coisas que não compreende e que lhe consumiria toda a vida para ser mostrado, sem lhe dar uma resposta, levando em conta a initerrupta transformação do lugar que vivemos e do “belo” que observamos. A idéia de belo, assim, dá origem a uma impressão analítica de que as coisas feitas para durarem muito tempo, não mudam. Elas não estão mais, elas são ou não são bonitas. E quando algo bonito envelhece, como um prédio, por exemplo, simplesmente se diz que o antes prédio novo e bonito, é velho e feio – ele não está, ele passa a ser, não podendo ser duas coisas opostas ao mesmo tempo. Assim, o homem que vivo está, não pode estar morto ao mesmo tempo. Talvez sua morte seja incrível por isso: ele vive de forma que afirma que ele não está preparado para ela, em qualquer momento que seja. As vestimentas são um ato de piedade com os mais velhos, vítimas potenciais dos olhares do mundo, não fosse o lúdico que suas camisas/camisetas transmitem e que permitem naturalmente sua circulação na rua até a condução. Vivemos regulados pela duração de nossas camisetas, que são trocadas constantemente por outras novas, não pela duração de nosso corpo. Assim, superando o conceito de belo de um determinado objeto, estamos diante da morte desse conceito e da substituição do mesmo por um novo, igual ou diferente, de forma que a idéia de que nós permanecemos, nos é sugerida pela evidência e aceita pelo conforto que a idéia nos causa. Assim, criamos deuses à nossa imagem e semelhança, pois o belo, “morre”, é trocado, superado, ao passo que a humanidade permanece viva diante do renascimento da própria criatividade.
Em determinado momento isso nos é desmentido, quando nos vemos diante da morte, mas nesta altura, a função cultural e social deste conceito, já terá cumprido com sua função, tendo dado alívio à humanidade até aquele momento. Tão bem costurado é esse conceito que nem mesmo estar diante do “desmascaramento” dele, o torna menos real para os que se despedem dos seus mortos.
Como um engodo, o belo nega a decadência e finitude da espécie humana, de forma que conseguimos, enganarmo-nos intuitivamente, que não podemos morrer a qualquer momento. Reside aí sua esperança de permanecer de alguma forma e onde irá se basear a sua idéia de deixar um legado, numa demonstração da sua loucura e do seu desespero por poder convencer-se de uma saudável mentira.

Iluminação

O mundo civilizado é uma galeria.
Papel único que desempenhamos ininterruptamente, alheio a qualquer contrariedade.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Surfistas Aviadores

Surfistas, para mim, são aviões.
Um surfista, o surfista, é um avião.
Não representativa, mas objetivamente, um aeroplano.
Talvez uma nave espacial, olhando onde quero chegar.
Uma onda que derruba um surfista desenha por baixo d'água uma nuvem, violenta qual uma tempestade.
Ele a aguarda passar enquanto se vê no meio dela, esperando não ser jogado contra os corais. Ou atingido por um raio.
É bonito ver um homem cair do céu.
É como se sua prancha o levasse ao paraíso.

A natureza tem senso de humor

Aqui,
No andar de dentro onde descansa o corpo cansado
Mergulhado, entregue, numa caverna de pura escuridão
Este menino entrega-se à gravidade frente a um amontoado de palha
Não pescou no dia de hoje. Não fez aventuras na floresta.
Noite passada ele se reuniu a outros dois amigos de vilas vizinhas
E foram juntos seguir o caminho longo que os levou à uma celebração
O menino celebrou a existência até perceber estar cheio dela
Ele existia de fato, mas às vezes não sabia
Era muito bom dormir mais uma vez
Sua aparência não fazia-lhe a menor importância
Minto! Fazia-lhe enquanto dormia como flores sem uma pétala
Sem saber
Onda há o nada e o passar do vento apenas alimentando uma fogueira
Sente-se trazido de dentro da montanha até a frente da caverna
O odor alcoólico de expulsão pelo sangue
No momento infinito ele estava morto, mas seu corpo o fazia viver.

* * *

Só é real a flora ao homem.
A fauna é-lhe qualquer coisa de importante longe de si.
Pensa que não faz parte dela.
Eis a melhor piada de humanos feita pela natureza.

sábado, 25 de outubro de 2008

Todos

Ser ator é se deixar ser colocado como tinta
afinado como corda
induzido como rima
decifrado como nota
modelado como pedra
ensaiado como dança.

Vertical espelho vivo
espera o fechamento das cortinas
para dar início ao espetáculo
quando a si mesmo assiste,
não do palco, mas da cena da vida
o inquilino que mora dentro do indivíduo, inquieto
que o imita.

A virtude não pede licença

Contra a manutenção da loucura alheia:
A virtude não deve pedir licença!
Matai vosso receio de imposição quando, onde, com quem e quantas vezes quiser
Já nos cercaram com a ditadura do medo, agora vamos surrupiar a crueldade humana contra seu próprio apego!
A última ditadura há de ser lançada! E vai ser a ditadura da virtude em seu último e determinante manifesto!
Ao desarme da vontade sem clareza da crueldade!
À proibição incondicional dos transeuntes calabouços!
À exposição ao sol, e desintegração, dos vampiros e dos sanguessugas!
Impiedoso clarão da virtude: interrompa sempre e, sobretudo, sinta indiferença pela democracia.
Secundária, ela não é preponderante fora dos parâmetros que a ti cabe estabelecer.
Seja a vossa a nossa voz.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Pequena Oração

Que Deus proteja, guarde e abençoe pois eu te amaldiçôo
Que a dor lateje e o grito se espalhe para que eu não precise te amordaçar
Que o tempo te traga os infortúnios no presente pelo tempo que me foi no passado que não mais me toca
Que a solidão te absorva, rumine e vomite pois a diferença é de quem já foi digerido
Que a chama se apague e o corpo escape qual fumaça entre os dedos
E mais importante, que Deus proteja, guarde e abençoe pois eu te amaldiçôo

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Snowboard

A morte natural é a coisa mais estúpida, cruel e impiedosa que existe. A água que decompõem um submarino, ininterruptamente, sem o menor pestanejo, somada a tranquilidade de um relógio ao pular de um segundo para o outro com seu ponteiro, sem chance de voltar atrás, remorso ou pedido de desculpas. Esse oceano univérsico é uma bacia de ácido sulfúrico corroendo minha condução. A cada letra escrita, contra minha vontade, sou mais vulnerável. Como uma pilha em descomposição, acho que posso salvar minha forma que é o que penso ser, e que se não puder, a morte me levaria então isso e eu ficaria com o conteúdo, o qual não vejo de forma alguma como posse, e sim, como aquilo que eu nunca pude perder pois nunca possuí, e sem o qual, eu não poderia executar qualquer faculdade intelectual. É interessante como um "objeto" se torna crucial para a vitalidade da subjetividade.
Como uma criança vendo outro comendo um doce, ouvindo um "não", cuja pronúncia do "N" inicia quando sou parido, e só ouço o "˜", quando silencio para sempre.
Malha de aço que faz amor comigo e me absorve, começando pelo centro da minha barriga. 75 anos compactados em meio segundo de abstração. Demonstração afetuosamente fria de duradouro toque. Implacável avalanche.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

As placas não existem

Agora, não acho mais que a gravidade seja algo diferente de uma placa de trânsito para alienígenas. A gravidade é definitivamente uma placa invisível cravada no fundo do mar, escrito: “Terra”. O que difere essa das outras é que ela é também, literalmente, invisível. As placas não existem.

Se for roncar, durma por perto

Existe um sonho sem fim para muitos.
Sem término para eles. Sem finalidade para mim.
Descobri que temos medo dos sonhos.
Inventamos o pesadelo.
Quero ter com os que sonham acordados.
Os adormecidos de uma única realidade que os envolve
Queiram sim, queiram não.
Eu rio demais dos que falam dos adormecidos como se estivessem se referindo à outras pessoas.
No sonho se controla tudo.
Se se toma um rumo indesejado, acordamos e chamamos de pesadelo qual alguém que nos desagrada e chamamos de antipáticos
Mas e se sonhássemos apenas um sonho, sem previsão para término, sem lembrança de início,
O temer e o pânico de que este único sonho se revelasse um pesadelo seria tão grande que não correríamos risco de qualquer natureza.
Controlaríamos todas nossas ações! E para quê?!
Neste sonho poderia haver alguém acordado.
Mais longe ou mais perto do que imagina.
Consegue imaginar alguém acordado num sonho seu?
No que esse “detalhe” torna um sonho? Ou um sonhador?
A lucidez não bate na porta dos mal intencionados.
Esse ronco alto que invade meu quarto sem pedir licença
ao me tirar o sono, não poderia me deixar mais feliz.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Por uma lei natural



Eu sei de onde vêm os anjos
e sei por quê vêm os anjos
e quem vêem os anjos
os que não os vê jamais

anjos são criações da contracultura
é o que há de verdadeiramente divino
enquanto aceita ser confundido por servo

pra quê precisariam mais os poetas
senão o intermédio entre criatura e criador?
e que diferença faria se o porta-voz dissesse
o que pelo vento, o todo-poderoso nunca disse?

é a maneira de nós, homens e mulheres anjos
abençoados pelas pálpebras para não vermos diferenças
de subvertermos enquanto seres humanos
as palavras esquecidas no refratário do nosso chão recortado

quem entende cães que enterram ossos que nunca roerão?
me tiram o chão. Abrem precipícios na terra.
como um gato no alto da árvore. Exatamente como um gato.
sem poder descer do galho. Gatos na árvore tendo filhotes.
gatos avós morrendo, nova ninhada nascendo esperando os bombeiros

anjo não tem asas. vive no galho da árvore
e espera por poder descer nesse mundo que existe só para ele
tornam do chão o leito do inferno e poluem o ar com enxofre
“Não desça jamais daí”, desejam os que fingem isso jamais pela cabeça passar

só um pequeno espaço plano, é o que preciso
para apoiar a ponta da escada em terreno seguro
através da qual, descerei e pisarei pela primeira vez
de pés descalços, no paraíso dos meus sonhos.

de anjo posso ser chamado até, por ser mais uma simples pessoa
a trazer aos braços desse mundo o que ele ainda não tem segurança de abraçar
como um parente, então, ele me perdoa e me abraça, com certa distância
pela sua impossibilidade de me negar, de me absorver
me chama de filho e me entrega as chaves de um quarto
é um longo caminho a percorrer até uma irmandade

se a sensibilidade envelhecesse como o corpo, de uma forma visível,
teríamos o argumento definitivo contra os adolescentes que têm tentado nos criar
os demônios não poderão mais alegar desconhecimento da subjetividade
ou mesmo, irrelevância dela, para manterem um reinado
ou tentar reconquistar o que não se sabe muito bem, por eles, que foi perdido

sob o brilho da lâmina de nosso olhar, para todo o sempre,
terão se apequenado e a si mesmos, condenado, sangrado.
voltarão da Terra do Nunca ou como nossos animais de estimação
estarão sempre a brincar e fazer travessuras nas e com as nossas coisas sem saber a quem elas pertencem.
Buscando um pouco de empatia, um pouco de carinho, um pouco de comida. Uma almofada nova.
Assim a teoria da evolução se consolida.

O tempo não existe, mas o que ele mede, não perdoa.

domingo, 21 de setembro de 2008

Título

E ninguém mais vai me pedir para ser auxiliar do mestre de cerimônias e nem para vestir-me de preto às 14 horas de sábado. Ninguém mais vai me falar das sete virtudes e ninguém mais vai vendar meus olhos por três horas e nem me guiar pelo som da voz enquanto atravesso cortinas de fumaça com odor.
E ninguém vai aparecer vestido como membro da Ku Klux Klan usando vermelho dizendo que se eu quisesse, a hora de desistir era a aquela.
Nem roupas de carnaval com brasão bordado pendurada nas paredes de uma sala esperando por meninos pra brincar de cavaleiro
E ninguém vai me fazer andar com os olhos vendados dentro de um perímetro, sendo seguido por outros cegos, logo atrás de um sujeito que vestido parecia um vendedor de bíblias, carregando nas mãos uma almofada com uma coroa em cima.
Nem a palavra "tio" para me referir à pessoas cuja pronúncia do nome não seria nenhum desrespeito, para me distanciar
E nem terei de, ajoelhado, com a mão sobre um livro, fazer juramento de segredo sobre qualquer profecia.
Não precisarei venerar, nem ouvir história de cavaleiros.
E ninguém vai precisar de apertos secretos de mão com o polegar para me reconhecer ou ser reconhecido
nem usar palavras distintas - mas pelo grupo conhecidas - para que eles saibam diante de quem eles estão
Não precisarei mais orgulhar meu pai, nem defender a idéia de uma pátria. Não precisarei fingir pureza, por deixar de prestar meu companheirismo, fidelidade e cortesia somente àqueles que a lei protege. Não farei referência às coisas sagradas oriundas do medo. Não aprenderei a deixar meu braço em "L" ao apertar a mão, tampouco estenderei o outro sobre o ombro de um amigo para ele ver que já estivemos na mesma escola. Não pedirei socorro em público, cruzando os braços, rezando por uma coincidência.
Não comparecerei à cerimônia pública com ar de quem deixou de fazer algo que fez anteriormente só para deixar as pessoas curiosas - como se elas tivessem interesse.
Não explanarei sobre virtudes como se esse fosse meu tema de casa, nem vou decorar juramentos para que seja colada uma nova honraria na minha aura. Não venerarei qualquer número, não me perguntarei o significado das letras, não andarei sobre piso xadrez, não prestarei atenção à cordas nas alturas, nem pilares, cadeiras, velas, candelabros, autos, escadas, cortina, preceptor, diácono, norte, sul, leste, oeste. Ou martelos de madeira, homenagens, honras, música, nem coisa alguma.
Só se deixa de levar um segredo a sério de todo depois que o revelamos.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Eu acho maravilhoso



Anda... anda na ponta das tuas raízes sobre o chão desse sertão. Faz elas aguentarem teu peso, suporta a dor como uma bailarina sustentando o corpo na ponta dos dedos, achatando as sapatilhas. Não teme o tempo carregado que com cinza e negro ameaça, tampouco a chuva que surra esse solo. Melhor: corre! É inevitável, a chuva que amedronta vai fazer barro desse chão rachado e partido, no qual tuas raízes, pouco a pouco, passos menores passarão a dar, até não mais se locomoverem. Até que elas patinem na terra, deslizem dentro dela, fincando-se mais fundo, procurando o centro desse mundo, esperando então por um dia de sol para secar-lhe a terra que te cerca para permitir que os seus braços voltem a crescer em novo solo úmido e fértil. Poderia uma árvore achar estranho o incomum nascimento de frutos em seus galhos, pela simples mudança de solo? Ninguém nos ensina a ousar. Ninguém desenha a felicidade. Árvore, pedra, gente. Papel e papel.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Longevidade = baixo metabolismo + castrar-se
A testosterona é mais prejudicial ao corpo do que o hábito de fumar.
Um estudo sério tendo eunucos como objeto de pesquisa há de me legitimar.

domingo, 14 de setembro de 2008

:P

Sair de uma festa sem beijar alguém é tão fácil como sair da vida sem ter amado.
Me perdoem os infelizes, mas isso requer dedicação.

E não é o mundo uma festa?

É sempre noite
não desliguem a música jamais
não parar de dançar nunca
quando o corpo se entrega se pode dançar em pensamento
luzes do dia compelem e não devem significar
qualquer dançarino de sério tornar
a festa é bagaceira, o sol é a única luz, mas temos efeitos coloridos bem legais
por quê parar se só vimos mais uma coisa bonita no caminho?
Por quê se ocupar com outra coisa? - você por acaso trabalha na casa?
É, eu acho que você não está se divertindo nenhum pouco.
E você não deixa simplesmente essas luzes mudarem, não é?
A azul é pra você estar dentro de um quarto, a vermelha, dum cabaré
você trabalha aqui para ter parado de dançar? Leva uma bandeja a algum lugar?
Você acredita em alguma coisa do que está vendo, exceto de que a música está tocando?
Não estou ouvindo seus passos
Dance! Dance! Dança! Dança! Dança!
Canso... danço sozinho.
O importante é não deixar de ouvir... a música... tocar.
Se existo como sou, não sou o único que não veio aqui só para ver a luz do dia.
É inevitável: nascemos e morremos no meio do salão.
Que bom!
Aquecimento

Esse céu estrelado eu conheço
É feito de cacau e chamam de diamante negro
Um firmamento desse gosto anima
E faz brincar qualquer criança
Nas horas de tédio eu sento e choro
Mamãe me deixe comprar mais um
Eu comi aquele mas eu dei um pedaço pro Arnaldo
Ele não comeu, mas eu juro que não queria jogar fora
Ele lambeu o último pedaço que havia
E eu continuo com vontade




Já fabricamos nosso céu: nossa piscina

Diamante Negro, maior que qualquer galáxia
As leva nos bolsos
Daqui do chão de onde meus pés estão fixados
Plantados, enterrados de tal maneira que preciso
Esforçar-me para flutuar
Eles me dão a impressão de estar dentro das quatro linhas
É um céu de chocolate, nossos fabricantes estariam orgulhosos
Mas meus pés sempre estão dentro do campo de futebol.
Nunca fora da linha. Sempre dentro dela, ou em cima da mesma.
Em cima da linha é um passivo ponto de observação.
Me é permitido abstrair até a sola do meu pé
Mas não devo, ou melhor, deve haver alguma outra maneira
De pensar os pés e acima deles. Mas na mesma altura e acima
É fora da linha, é fora do campo.
O futebol se me apresenta como uma tradução de algo que não
podíamos ler.
E eu sei que devo me importar com o lugar onde estou
Mas eu não falo nem vejo pelos pés
Daqui não há limites, daqui vejo todos os meus músculos
Sinto, em silêncio, toda força que não uso
E vou ter que virar as costas para o fazê-lo
E agir como se todo esse céu de cacau estivesse dentro da minha cabeça
Assim ocupo meu lugar, assim sei quem sou
Dessa forma, o mundo suja meus sapatos mas ele nunca me viu descalço
Sou qualquer coisa de univérsico.

sábado, 13 de setembro de 2008

Portal

Eu nunca fui começado. É difícil pensar-me assim ao concluir isso. Isso é completamente fora daquilo que entendo que sou. É negar-me a mim mesmo completamente. Tenho medo da minha imaginação. Não raro ela me ultrapassa e não sobra nada de mim pois essa imaginação desarma meu detector de mentiras. Por vezes sinto-me empurrado nessa direção, enquanto estou imaginando, sinto uma curiosidade tão imensa que me deixo absorver totalmente por meus pensamentos. Pensamentos não preferíveis, não selecionados, tentam apenas ver o que é possível de um navio invadido por todos os lados por centenas de piratas. A cadeira ainda não pisada pelo pirata que escorrega por um poste de luz, antes de chegar até a mim como uma nota que ressoa em meu ouvido, parece um espaço não ocupado, um espaço onde penso poder ser livre. Quem me dera saber o que se faz com essa liberdade. Quando percebo a falta de qualquer tipo de sentido num pequeno espaço, o vejo como sagrado e não ouso criar qualquer coisa naquele lugar. Ao mesmo tempo que o percebo e não lhe dou sentido, me sinto tentado a sentar no seu lugar, estar no espaço dentro da área que ele delimita. Ao mesmo tempo, essa cadeira, algumas vezes assusta, parece uma cama. Pode parecer um leito. Aí, percebo o quanto estou absorvido na realidade de permitir-me essa imaginação. Imaginação que tem vida por si só e pode me conduzir. Não há nada de bom nisso. O receio que sinto é o mesmo de um cego sendo guiado por uma voz ou nem isso, então. O risco de dar um passo em falso ou ser atropelado é verdadeiro. Não sendo apenas essa questão nesse descoberto desconhecido absoluto no qual percebo-me sem ter início, temo pela minha ampulheta e retorno. A vida é sim nesse retorno, a partir dele. O qual após retornado, me faz sentir-me desconexo do momento anterior. É tão internalizada essa habilidade para poder perceber fora de mim um universo sem sentido que, quando “retorno” ao deixar de fazer isso, percebo que passei um tempo sem ter o tempo contado. Antes do interstício, estou numa posição, e sem meditar, continuando meu banho, como foi como aconteceu nessa última vez, internalizo por meio da abstração e minha imaginação, que eu descreveria mais como uma suprema visão solitária que se auto-abastece, até permitir que eu retorne novamente, me deixa numa posição diferente da anterior que eu estava quando embarquei nessa “viagem”. Nesse momento, tenho a assimilação e a sensação de um tempo que ficou para trás sem que eu percebesse. De um pensamento que se findou em si lá atrás e não teve continuidade até o nascimento de outro e eu reconhecer a necessidade de manter-me nesse nascido pensamento que me leva a continuar meu banho, já razoavelmente tranqüilo, apanhar a toalha e depois sair dele para não mais ficar entregue dessa maneira. Se eu não conseguisse me incluir para me ver como parte das minhas abstrações, me lamentaria por isso. Agora que posso, desejo não ter conseguido. Ao mesmo tempo, não tenho certeza se há uma maneira de viver com isso que é o que todos fazem. Não sei também mas disso tenho quase certeza, se que é algo que ainda vai passar, tão logo eu trate isso. Ou se eu realmente estou louco. (não sou. Estou.)

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Deitado na cama com minha boca de borracha
guardanapo na mão e sacos de papel nos pés
escrevo no guardanapo por telefone
e quando erro, apago tudo com meu lábio inferior
Houdini, o mágico, de batuta e cartola
trajado de pingüim, apresenta o espetáculo
diz “abracadabra” e a carta vira passarinho
e entra nadando

Caminho da água por entre pedras da terra morta
rio desliza pelo canto, desvia da garganta
corrente que toca a margem mas foge do meio
língua morta que recepciona o esgoto
gordura de cadáveres por um lado, coca-cola pelo outro
corpo sem pudor, mente sem moral, jeito sem frescura
pessoas não tem coragem de segurar onde a língua toca
mais corajoso que nós mesmos é pedaço de nós
e noz pra boca engolir sem o corpo tocar é noz moscada
veia e chão que voadoras não tocam.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Pelicano: símbolo da coragem de morrer e de manter vivo.

* * *

Os homens são como peixes em aquários, lagos, rios e oceanos do universo.

* * *

Gentileza é não dar chance a outra pessoa para que ela sinta vontade de dizer “não”. Gentileza é não constranger as pessoas a dizerem sempre “sim”. O verdadeiro cavalheiro espera que as coisas lhe sejam dadas. Não as solicita.

* * *

Arrumar resposta temporária para uma pergunta, por ora, sem resposta apenas para satisfazer uma pretensão de auto-controle, é o mesmo que dizer que a igreja é um chiqueiro apenas por ainda não terem avistado o padre sair detrás da cortina.
Tenhamos calma! Embora rodeado de suínos, ainda não vi nenhuma espiga de milho.

* * *

Para os pais, os filhos são um troféu. E entre outros pais existe a disputa para ver quem tem o melhor filho. Sem o término dessa disputa, inicia-se outra, entre o pai e a mãe, para ver quem tem mais mérito ou demérito, dependendo dos defeitos e qualidades do filho.

* * *

Quando o homem vencer a morte, ninguém mais estará vivo. Estarão todos ligados.

* * *

Já que a perfeição é uma coisa muito difícil de alcançar, não é maravilhoso livrarmo-nos dessa busca, alegando ser ela, inalcançável? Seus preguiçosos!

* * *

Humanismo...
querem que o homem seja forte.
Mas os fracos o impedem de usar a sua força por que não é moral.
Querem que o homem seja inteligente, mas limitam seu pensamento, castrando-o e acrescentam a religião.
Querem que o homem seja corajoso, mas fazem ele temer o inferno ou pior, estipulam o valor de sua coragem e a pagam com gratidão inútil.
Querem que o homem seja bom, mas tira-lhe o prazer disto – o bem – fazer, pois dizem ser sua obrigação assim sê-lo.
Querem que o homem inove sempre, mas o primeiro que pensa diferente, é reprimido.
Querem que o homem seja líder, mas ninguém se dispõem a seguí-lo.
Que deve ser o homem afinal, senão a tradução dos seus desejos maléficos?

* * *

O melhor momento de fazer o bem é quando você tem motivos para fazer o mal.

* * *

Demonstrar desinteresse por uma pessoa, sem motivo declarado, é coisa que não te perdoam.

* * *

O homem trai por poder, a mulher, por vingança. Todavia, mesmo a mulher sendo mais vingativa do que o homem, a maldade do homem é muito maior do que a da mulher. É simplesmente tão grande que ele nem se atreve a cometê-la.

* * *

O fato de não possuirmos desejo é muito mais intrigante do que o fato de que a ele resistimos.

* * *

A desilusão é o primeiro passo na direção da luz.

* * *

A proposta pode não ser minha, mas o feitor da gentileza sou eu que sobreponho-me sobre todas as coisas.

* * *

Não preciso que ninguém me puna. Faço isso melhor do que ninguém.

* * *

Te abandono e me vou. Sigo minha vida. Nem te explico porquê. Mas escreve nesse papel para me lembrar sempre que por mais que eu quisesse te fazer voar, você insistia em manter os pés no chão. Vôo sozinho então, e mais alto ainda, porque não precisarei carregar o peso algum.

* * *

O que há de melhor no ser humano eu vejo quando olho pra dentro de mim mesmo.

* * *

O mais próximo que se chega de “Deus” é escrever um livro: você o planeja, o cria, o desenvolve e o abandona, respectivamente.

* * *

Os dias são de tristeza, as tardes são longas.

* * *

Calma! Calma! Meu Deus, mas matei um homem! Não...não...não..! Matei um pedaço de carne.... matei-o, eis tudo. Como se tivesse atropelado um cão, um gato, salvo que esses não têm identidade e CPF.

* * *

26-08-2008
O único milagre que eu já vi, o único que reconheço como tal e que é a mais intrigante sobre todas as coisas, seja na época que for, é o fato de não sermos canibais. Incluo os vegetarianos nesta questão. Não tem a ver com quem come ou não, carne. Desculpem, as aparências deverão sempre enganar.
Não respondo às tuas acusações! Permaneço calado porque calado torno-te injusto! Assim deveriam pensar todos os inocentes.

* * *

Assim fazem as pessoas com seres humanos maravilhosos que morrem: lhe desejam luz e lhe enviam para a escuridão.

* * *

As pessoas precisam esperar para celebrar uma vitória. São capazes de cancelar uma festa – como sempre ocorre – em caso de derrota. Em um Estado Alterado de Percepção, eu celebraria até mesmo a minha própria derrota, a minha morte só para não abrir mão do esplendor que há em me divertir um pouco mais.

* * *

2007 - Linhas! Quem precisa delas? Eis até onde vai a repressão. Não quero mais viver precisando dizer o que não é errado ao que pensa saber, você me diz que é sargento, eu digo que somos generais. Soldado era eu. É você. Você pensa que está amadurecendo e eu te digo que fui testemunha do meu próprio nascimento.
Ao caixa de super-mercado sou a maçã verde mordida. Mas é que não tem saída, o pecador não nasce da fruta do pecado amadurecida. Antes disso, é pecador, tem a vida pra fisgar algo que lhe dê alegria. Aí o umbigo do universo, a maçã podre mordida se vê como pêlo do ânus da sociedade falida, alma desconhecedora e desconhecida. De tão louca, é esquecida, por até hoje não ter conseguido transcender.
Por isso fica sempre de frente, especialmente, por estar de lado, não tem coragem de mostrar ao céu a barriga, nunca foi nada por um dia ousar sentir-se algo, diante de coisa nenhuma. Isso é solidão.
Admirador de luz das estrelas, brilhe mais que a noite!Admirador de luz das estrelas, seja a estrela porque tua luz é vontade!
Admirador de luz das estrelas, você agora olha para o espelho. Eu nem lembro mais da mentira e quando estou diante dela, me escondo.
Meu tempo não tem preço. Não está a venda. Não vale mais que o de ninguém e ao mesmo tempo, nem menos. Mesmo sendo assim, é tudo que temos: o espaço.
Calcular o deslocamento com algarismos é como calcular a satisfação de uma pessoa alimentada pelos gases que, possível e audivelmente, emita.
Sobre o espaço e vontade, o que eu ia dizer mesmo sobre o tempo?
ah, mas você não sabe. Não sabe, não.
És feliz por vender seu tempo por um valor mais alto que outro que o vende por uma quantia menor. Desejaria que não existisse alguém cujo tempo seja, aos olhos dos outros, mais valioso do que o seu próprio tempo e fosse compensado proporcionalmente. Dinheiro é materialização, ou melhor, representação de. Não o desejo! Minha vontade dispensa representação mas ao mesmo tempo é de transcendência tão admirável que é presenteada. Não tenho dinheiro, mas eu sou tua recompensa. Minha recompensa. Uma pessoa vendo alguém com mais boa sorte que a sua só poderia ver nesse indivíduo que sabe se deslocar bem no espaço, a chance de envelhecer mais vagarosamente ou mesmo alimentar o sonho de recriar-se numa criança, por medo de se desvincular da existência do seu meio palpável de interferir na Realidade e em outras menores mentiras. Seu objetivo final será sempre sair da loucura que esteve até agora e ainda está, em busca de um meio de vida relacionado a uma verdade mais elevada. Mas ela não quer e nem sabe. Ama a música... ah, se ela soubesse onde a arte, na verdade, leva! Por isso é bom que não saibam, pois por falta de coerência, fugiriam da beleza de ser humano tal como Cristo fugiu da loucura que naquele tempo já haviam criado. Ela nunca mais ligaria o rádio. Nunca mais assistira um filme. Privaria-se da vida pensando na morte e se apagaria para sempre. Conheço pessoas assim. É o mais belo da arte: levar-te a um meio quando você pensa no fim de algo sem duração. A arte retrata o tempo mas é sua inimiga. Toda apreciação visa eliminar o tempo. Uns dizem que diante de uma felicidade muito grande o tempo pára. Mas é só impressão. É que a felicidade grande demais nos retira do espaço contemporâneo. Nos remete ao passado e as tribos que somos e fomos. Tanta alegria! Em tanta felicidade, contar o tempo é idiotice. O dia não tem fim. O espaço é o tempo e hoje eu posso viver em qualquer época!
Eu sei o que fazer!
A estrela mais bonita. Estrela da própria vida. Na plataforma! Na plataforma com as mãos se mexendo, meu corpo vai encolhendo, desaparecendo, por que esse sorriso tão alegre mostrou que de onde venho vindo, trago comigo o brilho que vejo e não desejo, por certeza de estar ligado.
Eu já fui para a lua.

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Alguns homens não têm a altura do ódio que sentem.

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Não há nada mais agradável do que ser amado por alguém que você despreza.

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Aos que amam sem serem amados, escondemos os motivos que fariam essa pessoa esquecer quem ama, porque nesse momento de exposição, nos sentimos mais fortes do que ela.

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Quando somos rejeitados por quem amamos, por que não nos sentimos tão mal quando sabemos que a pessoa amada também está sofrendo por outra pessoa? É porque quando ela sofre mais do que nós mesmos, nos sentimos justiçados.

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No que diz respeito a relações humanas, quando brigamos com outra pessoa e saímos em todas as direções falando mal dela, não o fazemos para que alguém nos reconheça à razão ou para que o outro fique com má fama. O fazemos não por desabafo, mas para que não nos submetamos ao que sabemos que não devemos nos submeter. Precisa-se ainda de prova que diga que a maior pressão que o ser humano possa sofrer vem das outras pessoas e não dele mesmo? Que vergonha!

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Somente falamos mal dos outros em público para impedirmos a nós mesmos de voltar atrás ou a aceitar uma situação determinada que nos causou grande sofrimento ou constrangimento. É impedirmo-nos pela censura dos outros, já que pela nossa, não o faríamos. Aí dizem os homens mais altos: “não me importo com os outros ou com o que eles pensam”. Mas ainda ficam receosos e perguntam depois de um bom tempo: “Não vais fazer pouco de mim se eu retroceder?” ao que o outro responde: “Eu, não! Mas você, não vai?”.

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Um desejador passa a ser objeto de desejo quando demonstra algo, mas sobretudo quando não demonstra.

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Opinião boa é a solicitada.
“Eu” e “mim” são pessoas totalmente diferentes. “Eu” é minha capacidade; “mim”, é minha necessidade.
É triste, mas, algumas pessoas viveriam melhor se não tivessem cérebro.
Sala de aquário que eu não vou mais mergulhar.
Se olho sentado num banco de praça para o chão, o parque e o céu, o meu sujeito é óbvio: a árvore.

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Parques: eu conheço essa palavra. É como hoje são conhecidos onde mandamos nossas crianças. Mas quem iria dizer que é o recinto de atividades físicas usado no passado para treinar crianças no império dos helenos, apátridas e dos etruscos?

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Como em Tróia, assim são as pessoas e as cidades. As pessoas não-artistas não estão mortas, não. Estão no seu papel como sempre estiveram. Os artistas continuam compondo, criando mesmo, sabendo o único caminho que lhe resta. O artista é o amigo no barco, o motorista na faixa dupla, o que tenta construir um suporte para fazer a travessia à vida, à consciência e o retorno a floresta ao não-artista que não sabe andar.

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Nem os animais respeitam aquilo que os homens atribuíram conceitos de honra e respeitabilidade. Onde está a loucura?

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O artista é o responsável por fazer o Pinóquio se sentir um menino (uma pessoa num ser livre da natureza além).
Isso é uma coisa que me tranqüiliza, achar natural, e também me condena, embora não possa cumprir pena sem agredir minha personificação.

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13-04-2007
Bem, eu caí dentro do buraco
“Que tal a vista daí?”
Fausto conhece o bilheteiro – disse a tatuíra
E na calçada, desviando do bueiro, pessoas continuaram caminhando.
Me sinto mal por fazer alguém ter de entrar nesse buraco para me tirar.
Espero que a corda não arrebente. Temo pelo contagio da minha doença. Temo por mim mesmo. Num sentido ou no outro. Talvez eu devesse apenas abrir a torneira...
E por isso, procuro lembrar a mim mesmo que aqui no nordeste, suamos, mas não sentimos sede.
O que eu estou fazendo aqui?
Crer em Deus é desejável quando penso no infinito universo.
Mas o que fazer quando se mata o salva-vidas, sem saber nadar?
Bóias são vendidas em nobres lojas,
Ou fabricadas em finos lençóis,
Talvez agora eu tenha percebido que a única vontade que me leva é o sopro do ar
Tenho medo do fim
Por não saber em que parte do espaço me situo
Espero um dia sair desse cercado
E cair sincero num delicado abraço seguro
Antes de cair do pé de maçãs.

* * *

Após ter mirado e atirado, o simples caçador lamenta-se por ter abatido o animal certo. Mas agora o animal está morto e a sua mira, enferrujada.

* * *

13-04-2007
“Bobinho!” – eis o que sou diante da vida. Ao mesmo tempo, temo pela minha maldade e mais ainda pela minha bondade que me machuca.

* * *

Olho para dentro de mim e vejo poesia.
Mas não gosto dos seus versos.
Esse livro eu já li mais de mil vezes
E ainda culpo a bibliotecária por tê-lo me emprestado.

* * *

“Poesia à dois” – são versos que me iludem
mas sentado diante da folha com a caneta
te deixo que comece apenas quando eu terminar –
eu que já não sei mais dançar.

* * *

Doce riacho que reflete o frontal lado
Salve-me e me una a teu espelho
Que a rosa vermelha que eu vejo em teus cabelos
Finalmente, das minhas orelhas eu tenha coragem de deixar cair.
E boiar.

* * *

Ei valentão! Você aí mesmo com bala na agulha. Comprando ração para seus objetos preferidos e confortável quanto à sua superioridade por não ter de pedir aos bois para que te alcancem o presunto, no mercado.

* * *

Quando criança, lembro que, às vezes, estabelecia uma condição para tomar banho: que antes a empregada sentasse no meu colo. Eu disse que era criança, não santo.
14-04-2007
Meu nome!
Eu já não preciso mais dele
Auxiliou o fato de não mais ouvi-lo
Ou pronunciá-lo.
Hoje percebo quantas de suas letras me tornei.
E quanto espaço ainda há entre elas para ser preenchido.
É preciso uma ponte!
Entre uma letra e outra
Para que eu possa naturalmente vagar
Sem mais forçar-me a procurar.
Achar as vogais e concentrar a força na sílaba tônica.
Assim, escrevê-lo-ei fácil como minha assinatura.

* * *

Como um joguete do destino
Jamais entenderei como me ama dessa maneira
Nessa intensidade
Como pode me amar assim?
Eu, que tão confuso não sei como corresponder-te apropriadamente.
Eu posso compreender o amor de pai.
E posso descobrir todos os mistérios do Universo.
Mas tendo a natureza me feito homem
Jamais compreenderei o amor de mãe.

* * *

Às vezes eu não existo. De fato!
Minhas roupas não me pertencem
Tenho medo que me abandonem
Especialmente as calças cuja personalidade eu encorajo autonomia,
Deixando-as sujas
Talvez um dia ela vá embora
Mas continuará existindo
Minha vontade é uma lembrança.

* * *

Quem é meu melhor amigo mesmo? Uma letra: M.
Uma é dissílaba, a outra, trissílaba.

* * *

Interceder mulheres!
Onde está meu medo?
Aquele que eu abracei tantas noites...
Terá encontrado sua real dimensão quando dei-me conta de salvar a mim mesmo ou fui esquecido por um medo maior ainda?

* * *

Falta-me agressividade para escrever as vogais
Do meu próprio nome
Preciso de uma briga
Ser, é mais difícil do que pressupor do alto da minha representação.

* * *

É isso o que é?! Parem o carrocel!!

* * *

Já ruminei minha desesperança!

* * *

Uma vida é muito para não experimentar todas as coisas.

* * *

Sou Verlaine tentando me tornar Rimbaud. Haja-me mediocridade!

* * *

A além que se vê o tempo todo em segunda e se não vê algo agradável interpreta outra cena na mesma velocidade e mudança de direção do Azulzinho que rege o trânsito.

* * *

Não se trata de poesia. A poesia é o espelho. Trata-se de enxergar melhor e compartilhar essa visão com desinteresse, por mais dura que possa ser aos outros. E não ter medo! Pois se ver apropriadamente e conseguir ser, não poderão me machucar.

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17-04-2007
Todo dia sirvo no buffê a minha dose de sofrimento. E quando não consigo esperar pela janta, eu o almoço.

* * *

(Fulano) era um homem gentil, atencioso e refém do próprio corpo. Seria uma grande surpresa se um dia conseguisse ultrapassar a superfície desse lago escuro.

* * *

Crise total, espaço-temporal, especista, motivacional, sexual. Olhar para tudo e procurar o que é real, ao animal, eis meu caminho na tentativa desesperada de não destruir minhas personificações.

* * *

Estou inventando tudo...?

* * *

Sentir-se completamente à vontade é não estar à vontade.

* * *

Caminhando pra qualquer lugar
Eu mesmo!
Esticando e encurtando os passos
Desvio das formigas.