segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Ensaio sobre o belo I

A beleza é a prova material de nossa insanidade. O produto beleza é ainda a loucura humana por fazer sentido qual quando nossos ancestrais faziam círculos com ossos de animais sem saber o que eles representavam.
Como uma mensagem, a beleza é dirigida a outrem a partir das referências de agradável e equilíbrio de quem a constitui. Por outro lado, a não contemplação deste belo, o torna o resultado de um ato insano por parte de seu idealizador. Como o “agradável” preenche qualquer lacuna de falta de sentido filosófico, a beleza é a ciência de que não é importante saber do que estamos diante, desde que este enfrentamento nos seja encarado, mais ou menos apreciado, e ignorado. A beleza – o belo – é uma forma aceita de falta de sentido e que a partir da sua presença na sua construção, tentou-se fazer/criar sentido e não se conseguiu.
O belo acaba com a inquietação oriunda da incapacidade de fazer sentido. O belo existe para que o homem possa desviar os olhos das coisas que não compreende e que lhe consumiria toda a vida para ser mostrado, sem lhe dar uma resposta, levando em conta a initerrupta transformação do lugar que vivemos e do “belo” que observamos. A idéia de belo, assim, dá origem a uma impressão analítica de que as coisas feitas para durarem muito tempo, não mudam. Elas não estão mais, elas são ou não são bonitas. E quando algo bonito envelhece, como um prédio, por exemplo, simplesmente se diz que o antes prédio novo e bonito, é velho e feio – ele não está, ele passa a ser, não podendo ser duas coisas opostas ao mesmo tempo. Assim, o homem que vivo está, não pode estar morto ao mesmo tempo. Talvez sua morte seja incrível por isso: ele vive de forma que afirma que ele não está preparado para ela, em qualquer momento que seja. As vestimentas são um ato de piedade com os mais velhos, vítimas potenciais dos olhares do mundo, não fosse o lúdico que suas camisas/camisetas transmitem e que permitem naturalmente sua circulação na rua até a condução. Vivemos regulados pela duração de nossas camisetas, que são trocadas constantemente por outras novas, não pela duração de nosso corpo. Assim, superando o conceito de belo de um determinado objeto, estamos diante da morte desse conceito e da substituição do mesmo por um novo, igual ou diferente, de forma que a idéia de que nós permanecemos, nos é sugerida pela evidência e aceita pelo conforto que a idéia nos causa. Assim, criamos deuses à nossa imagem e semelhança, pois o belo, “morre”, é trocado, superado, ao passo que a humanidade permanece viva diante do renascimento da própria criatividade.
Em determinado momento isso nos é desmentido, quando nos vemos diante da morte, mas nesta altura, a função cultural e social deste conceito, já terá cumprido com sua função, tendo dado alívio à humanidade até aquele momento. Tão bem costurado é esse conceito que nem mesmo estar diante do “desmascaramento” dele, o torna menos real para os que se despedem dos seus mortos.
Como um engodo, o belo nega a decadência e finitude da espécie humana, de forma que conseguimos, enganarmo-nos intuitivamente, que não podemos morrer a qualquer momento. Reside aí sua esperança de permanecer de alguma forma e onde irá se basear a sua idéia de deixar um legado, numa demonstração da sua loucura e do seu desespero por poder convencer-se de uma saudável mentira.

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