O que chamamos nós de homem permanece tão “louco” para fazer sentido quanto na época pré-histórica cujas escavações já revelaram ossos reunidos, formando um círculo, na tentativa do homem da época de tentar comunicar alguma coisa.
Desde então tivemos uma evolução da tentativa de criar significado. Ainda não somos capazes disso, mas conseguimos criar uma forma de ficarmos diante da falta de significado das coisas que fazemos, e conseguir deixar de olhar para essas coisas.
Era preciso que aquela coisa indefinida que criamos, permitisse que ficássemos satisfeitos em não mais olhar para ela, isto é, seguir adiante e contemplar outras coisas. No entanto, a dificuldade que se apresentava era que isso não era possível pois dada a indefinição da coisa, era necessária a constante observação da mesma de forma ininterrupta pois ela poderia passar a significar algo, de uma hora para outra, quando menos se esperasse. Isso explica reações agressivas do homem da época que o faziam quebrar essas coisas quando da falta de sucesso em conseguir deixar de olhar para a coisa sem que aquilo não mais o intrigasse.
É importante notar que diante de algo que pode “mudar” de uma hora para a outra, sem aviso prévio, isto é, poder significar qualquer coisa mesmo sem ter conseguido isso até o presente momento, gera uma inquietude fulminante no homem que é o observador pois essa leitura atenta o impede de formar qualquer conceito de duração, permanência ou estabilidade acerca da chama da vida de seu próprio ser. Não se tem relevância o passado pois ele está diante de algo potencialmente novo, virgem e se sente medo do futuro, pois o surgimento de um significado desmentiria a sua subjetividade, isto é, o tornaria um objeto.
Com a utilização de linhas, cores, estilos e formas gratuitas de fabricação de todas as coisas, passamos a ter uma leitura do incompreensível diferente de antes. As coisas continuam incompreensíveis – como sempre haverá de ser – entretanto, abstraindo a importância verdadeira desse significado frente a uma possibilidade lúdica, mas mais confortável, como achar algo mais ou menos bonito, sem que haja importância do que essa coisa realmente seja e por quê seja, conseguimos encontrar um novo caminho a seguir, no qual, saber o que são as coisas não mais importa ou, menos importa, do que achá-las mais ou menos belas.
Do “o que é isso” para “é bonito isso”, o homem permitiu-se uma “folga”. E não pode-se culpá-lo por isso pois, aparentemente, esse lhe era o único caminho possível.
Ao poder definir algo como mais ou menos belo, atribuímos a qualidade de sujeito às coisas e, posteriormente, personalidade, em referência à forma e ou estilo, sobre a qual podemos falar a respeito criticamente, estabelecendo comparações. O mais importante dessa etapa é que quando as coisas passam a “ser”, elas, no entendimento do homem, páram de mudar, isto é, não estão mais em transformação – o que não é verdade – , o que acaba por tornar impossível qualquer mudança do seu “significado” desde que se lançou o último olhar sobre ela. Aí então conseguimos estabelecer uma denominação permanente sobre as coisas, de forma que o homem não precisa mais ficar atento a qualquer mudança da mesma pois ela não mais ocorrerá.
Evidente que se a coisa for um prédio, ele está em constante transformação, ininterrupta, mudando e se desgastando de acordo com as condições climáticas, chuva, vento, maresia, etc. Mas essa incompreensível constante mutação é ignorada pois o prédio passa a ser ou estar bonito, limpo, novo, e assim continuará, até que tenham havido tantas mudanças quantas forem necessárias para que ele tenha se tornado, por “eleição”, feio, sujo e velho.
O homem consegue estabelecer um relógio externo a si mesmo que lhe impede de não ver que lhe resta tempo de vida – ou de forma mais desesperadora, que ela não parou de se esvair por um segundo sequer – dada a diversidade presente encontrada nos lares, lojas e ruas.
Vendo-me diante da beleza de um prédio, tenho noção assim como meus contemporâneos, que a minha própria duração deve transcender a de vida do referido prédio. Da mesma forma, deve transcender inúmeras pinturas do mesmo, troca de placas da rua que ele se situa, revestimentos do asfalto, mudanças de lojas com as mais variadas decorações, assim como vestimentas das mais desconhecidas pessoas cujas peças têm uma vida utilitária extremamente curta, numa expectativa de dois a três anos.
Interessante observar que todos esses relógios externos se complementam e acabam por se equivaler pois são trocados, abandonados por novos, assim que “se faz necessário”, de forma que externamente, a duração de uma camiseta, com a regularidade com que é trocada, se equivaleria à duração da reforma de um edifício ou a vida útil de um automóvel.
Cada objeto nos permite ficar sem prestar atenção nele desde a última olhada por um tempo ímpar de cada espécie (material). Mas dada a presença constante da convivência mútua das mais diversas formas e durações, estabelece-se uma “média”. É essa média a responsável final pela capacidade individual do homem de olhar para coisas que ele não entende o que são, sem que isso o remeta a um estágio inicial no qual as coisas são algo que eles não compreendem e que podem passar a significar algo de uma hora para outra. O retorno a esse estágio inicial seria uma incapacidade humana de se “descolar” dos objetos pois colar-se a elas seria a forma de assegurar a própria existência até, pelo menos, o fim da existência do referido objeto, isto é, a sua decomposição.
Não diferente de um objeto, o homem seria nesse sentido algo sem subjetividade. Seria um pedaço de madeira vendo uma folha ou uma pedra se decompondo, sem ter noção exata se aquilo que está diante dos seus olhos duraria um tempo mais longo do que o da própria vida, mas esperançoso, de que não necessite encontrar uma outra coisa para usar como referência por pouca duração da primeira pois isso lhe representaria um caos definitivo.
O belo se torna linguagem. Sua abstração encoraja competições, comparações, preferências, gostos, vontades e subjetividade. Se essa abstração não pode ser mantida por algum motivo e nos vemos de volta a uma fase inicial, é natural que não consigamos sentir vontade, reconhecer gostos, preferências, ver sentido em fazer comparações ou nos engajarmos em competições, pois se trata de um idioma que nós não mais falamos e que, até aquele momento, não sabíamos que era só uma língua. Nos vemos diante de um paradoxo pois no mundo civilizado, entendemos que somos “o que somos”, e que as ferramentas das quais fazemos uso, são apenas coisas que utilizamos, que essa relação com a coisa externa, não traduz por fim quem somos ou escolhemos ser, mas são apenas coisas que utilizamos – o que se revela por um lado um equívoco, deixa claro por outro que não sabemos o que significa ser ou que extensão “ser”, representa.
Nesse sentido, ser indiferente ao belo, demonstra um certo desconhecimento ou ignorância, pois significa ser indiferente a uma parte inimaginavelmente indispensável de quem se é e da qual não se deseja abrir mão. Assim, o belo se afirma não como a construção da civilização, mas como ela própria.
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
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