segunda-feira, 22 de março de 2010

Coração Vagabundo

Descobri, ou reconheço, pela primeira vez.
Sou barato. Tenho valor, mas insisto, por instinto, sem aumento de receitas, em fazer liquidação.
Eu prometo que pedirei divórcio do meu coração.
Devo começar a distrair esse colecionador, para circular livremente, ver e sorrir.
Não posso crer no coração que guarda, por hábito, o que não precisa de espaço, mas alegria.
Encolhe-te, pequeno coração, e encontra o teu lugar, apertado no meio do meu peito.
Tu guardas e retém o mundo, mas a minha ternura te escapa, devagar, como uma música que se desenlaça e pacifica, onde vê, ouve, sente e reside, o meu ser.
A partir de hoje, tu somente baterás, recolhido, e eu, entenderei.
Assim, te darei tudo que guarda, sem possuir.
Pobre e incapaz, coração, que tanto precisa de mim, como criança que pede, insiste e incomoda, obsessiva e implicantemente, vinte e quatro horas por dia, em minhas tardes, minhas noites, quando durmo, e minhas manhãs.
Chega a hora de acalmá-lo, coração, e retirar-lhe todas as tarefas que assumistes consigo.
É chegada a hora dos homens falarem com os próprios corações.
Meu coração é querido, pela primeira vez.
Finalmente, tendo me tornado independente, se acaricia, me mostrando onde está.
E dá adeus, me liberta e se liberta, de mim.
Homem tornou-se, o menino, para não mais pedir licença ao coração.
Meu coração me deixa. E eu deixo o meu coração.

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