quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Por uma lei natural



Eu sei de onde vêm os anjos
e sei por quê vêm os anjos
e quem vêem os anjos
os que não os vê jamais

anjos são criações da contracultura
é o que há de verdadeiramente divino
enquanto aceita ser confundido por servo

pra quê precisariam mais os poetas
senão o intermédio entre criatura e criador?
e que diferença faria se o porta-voz dissesse
o que pelo vento, o todo-poderoso nunca disse?

é a maneira de nós, homens e mulheres anjos
abençoados pelas pálpebras para não vermos diferenças
de subvertermos enquanto seres humanos
as palavras esquecidas no refratário do nosso chão recortado

quem entende cães que enterram ossos que nunca roerão?
me tiram o chão. Abrem precipícios na terra.
como um gato no alto da árvore. Exatamente como um gato.
sem poder descer do galho. Gatos na árvore tendo filhotes.
gatos avós morrendo, nova ninhada nascendo esperando os bombeiros

anjo não tem asas. vive no galho da árvore
e espera por poder descer nesse mundo que existe só para ele
tornam do chão o leito do inferno e poluem o ar com enxofre
“Não desça jamais daí”, desejam os que fingem isso jamais pela cabeça passar

só um pequeno espaço plano, é o que preciso
para apoiar a ponta da escada em terreno seguro
através da qual, descerei e pisarei pela primeira vez
de pés descalços, no paraíso dos meus sonhos.

de anjo posso ser chamado até, por ser mais uma simples pessoa
a trazer aos braços desse mundo o que ele ainda não tem segurança de abraçar
como um parente, então, ele me perdoa e me abraça, com certa distância
pela sua impossibilidade de me negar, de me absorver
me chama de filho e me entrega as chaves de um quarto
é um longo caminho a percorrer até uma irmandade

se a sensibilidade envelhecesse como o corpo, de uma forma visível,
teríamos o argumento definitivo contra os adolescentes que têm tentado nos criar
os demônios não poderão mais alegar desconhecimento da subjetividade
ou mesmo, irrelevância dela, para manterem um reinado
ou tentar reconquistar o que não se sabe muito bem, por eles, que foi perdido

sob o brilho da lâmina de nosso olhar, para todo o sempre,
terão se apequenado e a si mesmos, condenado, sangrado.
voltarão da Terra do Nunca ou como nossos animais de estimação
estarão sempre a brincar e fazer travessuras nas e com as nossas coisas sem saber a quem elas pertencem.
Buscando um pouco de empatia, um pouco de carinho, um pouco de comida. Uma almofada nova.
Assim a teoria da evolução se consolida.

O tempo não existe, mas o que ele mede, não perdoa.

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