quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Snowboard

A morte natural é a coisa mais estúpida, cruel e impiedosa que existe. A água que decompõem um submarino, ininterruptamente, sem o menor pestanejo, somada a tranquilidade de um relógio ao pular de um segundo para o outro com seu ponteiro, sem chance de voltar atrás, remorso ou pedido de desculpas. Esse oceano univérsico é uma bacia de ácido sulfúrico corroendo minha condução. A cada letra escrita, contra minha vontade, sou mais vulnerável. Como uma pilha em descomposição, acho que posso salvar minha forma que é o que penso ser, e que se não puder, a morte me levaria então isso e eu ficaria com o conteúdo, o qual não vejo de forma alguma como posse, e sim, como aquilo que eu nunca pude perder pois nunca possuí, e sem o qual, eu não poderia executar qualquer faculdade intelectual. É interessante como um "objeto" se torna crucial para a vitalidade da subjetividade.
Como uma criança vendo outro comendo um doce, ouvindo um "não", cuja pronúncia do "N" inicia quando sou parido, e só ouço o "˜", quando silencio para sempre.
Malha de aço que faz amor comigo e me absorve, começando pelo centro da minha barriga. 75 anos compactados em meio segundo de abstração. Demonstração afetuosamente fria de duradouro toque. Implacável avalanche.

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