quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Tecido

Senti o contato do último aço existente.
Assim pensava. Era o primeiro. Aí me julguei apto a falar da verdade primeira.
Era assim. O espaço era a casca da cebola que se estendia até a ponta do meu dedo, uma camada interior a outra.
Até o centro da minha barriga. Mas e quem caminha nessa ventania?
Ao cortae a cebola e ver as lágrimas caindo, nada desconfiei de que não eram minhas.
Como poderia? Seria o primeiro sujeito o dono ou o intérprete, como preferir.
As lágrimas não eram. Eram pontos atrás da malha de aço como um suor escorrendo num dia de verão. A atravessa.
Única malha de aço, totalmente indestrutível. Vejo-te enfim como uma renda feita na folga de uma menina educada no interior. Vejo cada ponto que brilha atrás da tua onipresença.
A luz do sol não te ilumina pois esbarrada no espaço que a ti se antecipa.
Você é como pequenas bolhas de ar no fundo de um açude escuro que não atinge a superfície. Mas você está aí e agora eu sei.
Olhos não me mostram, assim a percepção não me auxilia, mas está aí sim com certeza.
Vem antes de tudo o mais. Talvez não hajam camadas como eu imaginava, talvez esteja tudo misturado mesmo.
Esse nosso açude está a frente das pequenas bolhas de buracos negros.
Pra se ter idéia de onde está um e outro, em primeiro lugar, do açude jamais veremos a superfície. Estamos submersos. Quanto a proximidade, a água desse espaço está como a sala, assim como as bolhas de buraco negro estão para a sacada.
Logo, a localização não é geográfica. Apenas carece de identificação.

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