Vi seu tornozelo dobrar. Você corria tão lindamente que a beleza do movimento não deixou a dor se aproximar para que você também o admirasse. Agora estamos no hospital arrebentando borrachas. Eu posso ver o lençol através do seu braço. Na minha cabeça eu colei uma porção de selos e a correspondência sempre era extraviada antes de chegar a algum lugar. Eu não me lembro de como viemos parar aqui. Me disseram um dia que eu havia nascido, você acredita nisso!? Não morro nem em mim, isso é certo, mas não tanto como a ludicidade das fábulas. Eu parei de brincar apenas por não estar me divertindo tanto, mas sendo loucura o ato de brincar, a não-loucura – conhecida como pirações – enquanto descoberta, esconde atrás das cortinas o corpo de Cérbero e o Diabo, em um só.
Haviam muitos machucados, eu sentia, e meu corpo estava protegido dentro de um saco de ar, eu sabia. Eu podia me distrair um pouco se ainda fizessem carros de rolimã para descer a ladeira, mas onde eu estive não havia superfície capaz de me embalar. Eu mesmo estava embalado e embalado estava. O tornozelo teu dobrado sequer te encoraja a carregar a si mesmo quanto mais o carrinho. Terá forças para machucar-se tentando novamente quando o velho machucado ainda não cicatrizou? Chamei a enfermeira para ver o seu braço mas não soube explicar como ele foi dormir e desaparecer. Ela está tentando me mostrar de quem é e onde ele está. Meu pé começa a dormir. No desconforto, na falta de apoio de uma das pernas ainda me levanto? É preciso superar o corpo, do contrario sou refém da pulsação e ah, ela sabe trancar a porta e jogar a chave fora. Mas é que de repente entre um e outro piscar de olhos, eu posso acordar em um pátio iluminado. Eu... meu corpo? Corpo... sujeito? Oh, mas eu que me tornei ferramenta do meu corpo! Nem sei como pôde ele virar o jogo! Alguém acenda as luzes na sala. Eu enxergo demais no escuro.
Tudo começou com a brincadeira de sentir todos os aromas e experimentar todos os venenos e hoje, os ratos sabem bem demais que o navio afunda no horizonte. Não pulem jamais, ratos! Não deixem o navio!
Amanhã ou depois os reparos terão sido feitos e mesmo que seja verdade que não há nada para consertar, pense que há para parir assim um pouco de fé, já que a esperança já foi guilhotinada pela assimilação. Tão certo quanto tudo é incerto, não é impossível encontrarmos um lugar para atracar. É só mandar alguém para a torre de observação para ludibriar com falsas ilusões vendo grotescas e desenganadas miragens até que o momento de gritar “Terra a vista”.
Mesmo assim, muito cuidado ao fazê-lo, pois tão cedo que encontrar a terra que nos dará um pouco de descanso e salvação, mais cedo ainda desejarão uns camundongos pular e ir nadando até a costa.
Não por eles, mas por todos nós, só conseguiremos estando todos na superfície do casco.
segunda-feira, 22 de outubro de 2007
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