terça-feira, 16 de outubro de 2007

Confortavelmente entorpecido

Todos os dias acordava para a minha miserável realidade, levantava porque sabia que tinha que faze-lo. Ia até o banheiro e lá pensava como alguém que passou pelo fim de semana que era segunda feira, mas ao invés de pensar no dia da semana que era, eu dizia pra mim mesmo: é, isso está mesmo acontecendo. Dia apos dia. E isso às vezes acontecia em outros momentos do dia. Era de verdade. O que? Eu não sabia, mas era. Era como se às vezes o calor do inferno contínuo, me fizesse perguntar quando estava prestes a morrer de desidratação, se eu era mesmo o diabo pra estar passando por aquilo. E a resposta não existia. Se ousasse dize-la, falaria que era o próprio, mesmo sendo um anjo e era difícil crer nas asas que estavam fora do alcance dos olhos. Por isso, levantava as sobrancelhas como quem deseja arrancar nove páginas do calendário em pleno verão e seguia meu dia, passando pela sala. Vazio, tentava resistir a pressão do meu corpo sobre a minha alma e para isso, enganava a mim mesmo, fingindo que estava assistindo televisão, filmes aos montes. Me divertindo, não. Resistindo até a hora de dormir. Se a alegria passa rápido que nem se vê, o oposto não tem fim, é eterno. Mas pode-se também dizer que durou alguns meses isso. Às vezes evitava companhia. Muitas vezes. Saía e ia embora. Sem condições de me relacionar. Eu estava sendo esmagado por algo que os outros não podiam ver. Estava sendo esmagado por mim mesmo. E, a caminho de casa, eu buscava a alternativa, é claro, mas olhando com um maior distanciamento hoje em dia, o ato em si, mostrava um jovem rapaz infeliz procurando um lugar escondido dos corvos pra que deles sua alma não fosse vítima enquanto a areia da ampulheta da sua vida ainda não havia escoado. As palavras do francês maldito que acreditava estar no inferno e, por isso – segundo dizia – estava, me foram lembradas. Eu não acreditava nenhum pouco em estar no inferno, no entanto, tinha minhas dúvidas, e nada é mais verdadeiro que a suspeita. Nem a própria suspeita.
Isso mata. E o que é pior: te deixa vivo.

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