Como de costume, eu não precisava dar corda no relógio para que ele começasse a despertar. Era assim a vida com Valdir, um cara magricela com chapéu de palha e paieiro pendurado na boca com o peito vermelho e suado e os últimos três botões da camisa, abertos. Ele me olhava depois de beber cachaça com aqueles velhos olhos azuis acusadores e furiosos e certa vez pegou o revólver no quarto numa das discussões que tivemos. Deixou um serrote, um martelo e um saco de pregos em cima da mesa, ao lado do café da manhã que Helenice havia posto e apanhou na gaveta ao lado da cama o revólver.
Ele voltou para a sala onde eu estava, agora, com uma cadeira pressionando por trás meus quadris e peito procurando espaço entre aquilo que a ponta da arma dava como limite e os pés permitiam por equilíbrio.
- Tu quer ver quem é homem??! – gritou ele me apontando a arma. Eu, apenas fiquei com meus olhos fixos.
- Quer ver????!! – tentei dessa vez não arregalar os olhos.
Aí ele apontou a arma para a própria cabeça.
- Tu quer que eu me mate????! Quer que eu me mate guri???!!! Tu quer me matar né???! Tu quer que eu morra!!! Fala se tu não quer que eu morra pia de merda!!!!
- gritava com a arma embaixo do queixo olhando-me com os olhos arregalados quase saindo da face de fúria. Ele gritou um pouco mais e depois vendo-me não afirmar ou negar nada, sem qualquer reação exceto estar atento ao que acontecia, começou a afastar o revólver do queixo e a abaixá-lo. Após tê-lo feito, aproximou-se um pouco mais dando pra ver bem seus olhos azuis sérios, vermelhos na parte esbranquiçada, e sentindo o fedor de álcool que exalava dele ainda tive que ouví-lo justificar:
- Eu fiz isso pra ver se tu é homem. E tu é um piá de merda.
Feito isso, retirou-se para o quarto onde a cama o esperava pra abraçar-lhe e Helenice largou o pano de prato na cozinha vindo até a sala e me incomodou mais um pouco.
Assim, dei uma breve olhada pra ela, não disse nada e fui até os fundos de casa, diante do tanque de pedra, limpar os peixes.
terça-feira, 28 de agosto de 2007
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