Eu que não agi como um rei quando tinha uma coroa,
Eu que não segurei o cetro quando estava com ele escorado na minha perna,
Eu que não demarquei fronteira vendo outros reis a minha volta,
Eu que tinha um castelo e não hasteei minha bandeira,
Eu que não consegui andar a cavalo em meu próprio latifúndio,
Eu que fui um não-deus quando escreveram a bíblia em meu nome,
Eu que não fui capaz de ser o protagonista de minha própria fantasia,
Eu rei que era servo do povo por não cobrar impostos,
Eu que estava rodeado pela corte, com um anel no dedo e pensava em retira-lo,
Eu que sendo um rei, senti tanto medo de outros monarcas aliados,
Eu que era apenas um rei morto num continente onde a rainha-mãe viva não se mexe,
Eu que era um animal e não sabia como realizar a minha vontade,
Eu que sou um animal e me chamo de homem,
Eu que fui um rei acuado nas minhas próprias terras, desaparecido nas minhas próprias roupas,
Eu que tive medo de ser e me agarrei ao que não era até então,
Eu que esperei derrubarem minhas duas torres para mandar meus arqueiros atirar,
Eu que só tinha coragem de não ser por estar rodeado de pessoas que eram,
Eu que não consegui significar a mim mesmo por vergonha,
Eu que sou um rei que deseja delimitar seu território do meu asilo político,
Eu que ainda não consegui deixar de ser um rei cachorro que consegue sobreviver apenas por fingir que não entende nada.
* * *
Mudado, apavorado e de cara limpa, sou alvo fácil.
Me sinto exposto. Meus olhos expressam minha loucura.
Preciso de óculos escuros sem motivo, mas minha boca fala.
Tenho de me reservar um pouco. Ficar um tempo sozinho até encontrar o ritmo e não ser mais o retrato do desespero. Aliás, sozinho, não. Preciso tornar-me uma companhia.
Vou me ajudar.
* * *
Eu vivi o inverno. Passei há pouco pela primavera. E veio o verão. Diferente do que eu imaginava, mas perfeito, só preciso me acostumar... com o calor.
* * *
Apenas mais uma das bestas da floresta. Saber isso é quase um mea-culpa, ser ateu é negar-se o titulo de ser especial, mas se ver sem ele é tamanha agressão ao ser humano que muitos poderiam ser levados ao suicídio se não descobrirem o que fazer. O vazio pode ser tão grande que até nossos corações parecem não ser mais nossos, mas mesmo assim, preciso aceitar a representação do mundo contemporâneo e a segurança que a cidade deu ao animal de raça homem, a besta iludida cujo sustento da ilusão é a selva de pedra. Na lei do mais forte da floresta, me vi como aquele que não conseguiria sobreviver com segurança. Precisaria adquiri-la.
sexta-feira, 29 de junho de 2007
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