quinta-feira, 1 de maio de 2008

Eu, por Arnaldo

Gosto de observar o infância de um gato pelos olhos de uma criança. O adulto em mim o adotou após conseguir cuidar responsavelmente de uma planta. Demanda de uma atenção maior além de dedicação e paciência, de custo completamente irrelevante em relação às alegrias que a simples observação de suas brincadeiras têm me provocado. Arnaldo é um adorável gato vira-lata preto com branco que descobri gostar de azeitona, queijo, iogurte, massa e algumas outras coisas. É o segundo mês que dividimos o mesmo teto e, por vezes, consigo me observar pelos seus olhos. Conviver assim, além do prazer que proporciona, lança um olhar permanente sobre sua pessoa pelo ponto de vista do bichano. Engraçado como é difícil ser íntimo, morando sozinho. Um verdadeiro paradoxo. Por outro lado, a invasão de um felino ao lugar onde moro, me permite inúmeros momentos a mais de intimidade mesmo comigo mesmo, do que se continuasse a morar sozinho. Como passamos longe de nós mesmos! Longe, mas tão longe que não conseguiríamos nos ver acenando se estivéssemos nos despedindo de nós mesmos a algumas quadras de distância, embora o tempo todo tenhamos estado sob nossa própria pele.
À noite, sobre a cama, ele costuma correr atrás do próprio rabo e às vezes pára, atento a qualquer movimento. Eu apenas o observo de canto. Seu rabo mexe involuntariamente e ele estica o pescoço, virando o rosto para o mesmo e volta a tentar alcançá-lo novamente. É como se observasse a si mesmo pelos meus olhos. Quando corcundo, arqueia as costas, abaixa a cabeça, vira as orelhas e anda de lado como se estivesse embriagado, eu rio debochadamente dele e ele fica sem qualquer reação. Em seguida, desconcertado, emite um baixo barulho e sai correndo novamente ou tenta me arranhar, abraçando meus braços. Me questiono em alguns momentos se ele é capaz de assimilar um deboche escancarado por uma risada de boca aberta de frente pra ele, de forma que pareça algo sem sentido. Talvez não pelo motivo dela que eu quereria passar ou interpretação, mas o desconcerto dele é visível, assim como a reação em tomar um outro rumo naquele momento. No final desta tarde, ele estava sentado sobre minhas pernas enquanto eu navegava na internet. Ele vez por outra fica olhando pra mim e eu fico o olhando também. Em seguida, sentou-se de frente para o computador, sobre a minha perna esquerda apenas e ficou acompanhando a seta do mouse. Outra vez ele já tentou pegá-la empurrando o monitor pra trás. Como se acompanhado estivesse – e estava – resolvi procurar algo que pudesse ser do seu interesse. Fui ao google e escrevi gatos. Depois, cliquei em imagens e comecei a abrir fotos de gatos e gatas. Fotos grandes. Arnaldo continuou olhando atento. Eu arrastava a seta do mouse até o canto, onde não era possível vê-la, senão ele ficaria distraído com ela. Olhamos umas cinco fotos e depois ele desceu da minha perna. Voltei a fazer o que estava fazendo. É outra forma que usei para ver sinal de algum reconhecimento da parte dele. Já o havia segurado na frente do espelho. Dessa vez, o observei como alguém que investiga se ele deseja outra companhia dividindo o apartamento. Não sei se cheguei a torcer para que ele tivesse uma reação que denunciasse isso, mas fiquei atento. Acho que isso responde a minha pergunta. Talvez, não. Obviamente, sou eu quem desejo essa ou outro tipo de companhia.
Como já disse, me vejo pelos olhos de Arnaldo. Suas necessidades e desejos são apenas os que eu consigo imaginar que também tenho. E eu tenho. Dou pela falta.
Mia o gato dentro de mim.

Sem comentários:

Enviar um comentário