sábado, 13 de outubro de 2007

De Romeu para seu segundo nome

Romeu passou mercúrio sobre o indicador, enrolou-o com um band-aid e apanhou uma caneta sobre a escrivaninha. Se dirigiu até a varanda da sua casa e saboreou todo o seu desgosto, olhando para uma folha branca de papel na qual começou a escrever em seguida.

“Ah, será que você pode me esconder?
Eu preciso de um lugar novo.
Queria que essa gente nunca mais me procurasse
Queria que meu mundo fosse um reino distante
Queria que meus problemas não interessassem aos outros
Como dói ser um cachorro...
A vida toda enrolado no cobertor em pleno verão
Com vontade de explodir tudo mas sem dever – dizem – fazê-lo
Gratidão é uma porquice...
Ah, de vocês, desculpem a sinceridade, eu só preciso do dinheiro
Não sei de lugar algum ou coisa alguma que me levaram ou fizeram
Para que eu tivesse que corresponder num nível tão alto e de uma forma
Tão trivial com as suas expectativas
Vocês estão me matando, não me deixam viver
Por isso não quero mais relação, não quero mais incômodo
Quero apenas viver um pouco, ver o que seria se não fosse por vocês...
E pra isso só preciso de dinheiro, me desculpem a sinceridade, mas é do que preciso
Não exigiria jamais que tivessem a sensibilidade que eu teria caso fosse autor
Do crime mais grotesco que se comete contra um descendente e que nossa época ainda não pune devidamente
Tivessem essa grandeza, não teriam antes sido tão pequenos. Antes não, sempre, até o presente momento.
Há quem diga que eu tenho muito a agradecer, mas eu só vejo coisas a lamentar.
Me desculpe pela ingratidão e pela sinceridade, mas eu preciso apenas de um pouco de dinheiro e nada mais
Seus rostos não me são queridos e só eu sei, na verdade, o quanto a ausência de poder sentir dessa estima me é lamentada. Cobrar de mim mesmo seria uma agressão ainda maior a quem já foi tantas vezes violentado, sendo, da felicidade, privado
Eu não irei mais...
Estou estável onde vivo, no anonimato de andar por estas ruas
A própria solidão que vocês chamam e não entendem como eu posso gostar, tem nome diferente no meu universo. Chamo de esperança.
Preferi-la a estar junto de vocês me é algo positivo, enquanto que pra vocês, algo insuportável.
Esta cidade é um novo quadro, uma nova folha de papel e quanto mais branca está – e acho aí que sou um pouco cigano, como minha avó – mais bela me parece. Pouco posso esperar para iniciar a preenchê-la e espero fazer isso da melhor forma possível.
Como lápis de cor, me desculpem se eu prefiro o preto ao cinza, mas prefiro considerar a última instância a ter de usar uma cor que das suas realidades me recorde.
E eu só preciso de dinheiro de vocês, desculpem a sinceridade, mas é só isso...
Na mendicância não sinto qualquer orgulho exceto o fato de reconhecer e explorar meus malfeitores. Vissem eles a si mesmos como tais, talvez não cometessem o engano de me empurrar qualquer sentimento de ingratidão e me enquadrar na cerca do puro interesse, fazendo com que eu tivesse de me explicar, quando eu não precisava, na verdade, pelo direito me assegurado de fazer uso da falta de vergonha em esticar as mãos com as palmas pra cima, olhando com cara de coitado, expressando minha canastrice a quem julga-se conhecedor do teatro da vida.
Mas vocês não entendem e penso que é melhor assim, afinal, pior pra mim seria caso demonstrassem o menor interesse pois sabe-se lá quantos anos mais me seriam surrupiados.
Por isso preciso mesmo de um pouco de dinheiro e nada mais de vocês.
Tanto vocês me são inesquecíveis, embora não os queira ver ou ouvir nunca mais, que cá estou escrevendo esta carta. Assumo que nunca sairão da minha memória, mas enquanto me houver dinheiro, posso ainda nela guardá-los – como a bala que feriu o soldado – , entretanto, devo perguntar, além dessa promessa, devo-lhes alguma outra apresentação enquanto atração do espetáculo da noite?
Comprem macacos, peixes e porquinhos-da-Índia. Gatos e cachorros não lhes são suficientes”.

Feito isso, fechou e selou a carta. Tomou um pouco de café numa pequena xícara que largou sobre o igualmente pequeno pires, voltou para dentro da casa, apanhou as chaves sobre a mesa e bateu a porta. Saiu caminhando pelo bairro, desviou de uma menina passeando com seus cães e de uma idosa olhando para cima, perdida qual uma criança de 3 anos de idade. Passou no correio e olhou para seu reflexo no vidro, na entrada do mesmo. Pegou o primeiro táxi próximo da esquina, após comprar o jornal diário na banca de revistas, sentou-se no banco de trás e bateu a porta.
- Para a casa dos Capuleto – ordenou, embora não conhecesse qualquer Julieta.
Lá, o aguardariam talvez não tão bem e era essa possibilidade que o atraía assim como a certeza de que também não o receberiam tão mal.

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