Uma abelha. Entre milhares, milhões, bilhões. UMA abelha. Apenas uma. Poderia ser eu.
Embora não possa se dar o nome de convívio social ao que as abelhas têm, é fato indiscutível que muitas delas vivem juntas, colhendo o néctar das flores e, de forma organizada – sob a liderança de uma abelha-rainha, é claro – , constroem uma colméia e têm como único objetivo, isso. Apenas e tão somente isso. Há sempre o projeto de construção de uma colméia entre as abelhas, e o consenso de que todas devem subordinação à abelha rainha. É a forma como elas se organizaram desde o início dos tempos. As abelhas, como insetos que são, pertencem à classe de seres vivos que o ser humano nomeou “irracional”, excetuando dessa denominação apenas ele próprio.
Embora sejam animais “irracionais”, é correto afirmar que as outras espécies têm consciência do mundo exterior – tanto que se relacionam com ele e com os outros seres – e têm sensibilidade. Nesse sentido, é aceitável que um animal não mude de comportamento pois, mesmo ele tendo consciência – como já foi dito – e um perfil psicológico que lhe é único, assim como o nosso, o animal não questiona o próprio comportamento como o homem pois não têm a inteligência em um nível elevado como a dele – homem – , senso crítico e nem a linguagem falada ou escrita, as quais são formas de passar conhecimento e traçar a história afim de definir a localização do homem no presente, impedindo-o do deslocamento. Tampouco os animais têm educação ou freqüentam escolas e também nem poderiam, afinal, mesmo se possuíssem inteligência para tanto, formar uma escola requer um convívio social da espécie, ou seja, a formação de um grupo – seja ela qual for – pois é o agrupamento de seres – no caso, pessoas – a única coisa que foi capaz de despertar a necessidade de se construir um local onde seus descendentes pudessem ser educados de acordo com os conhecimentos que eles adquiriram de forma empírica e posteriormente, científica. O animal não se organiza socialmente. Ele passa grande parte da sua vida sozinho e satisfaz suas vontades sem condenações morais por serem seres livres, independentes e amorais. Sendo assim, o animal não tem o dever de mudar o seu comportamento pois se tivesse a capacidade de se auto-analisar, não teria a de concluir pois esta estaria ainda um degrau acima.
Levando isso em consideração, é mais difícil para as abelhas deixar de fazer o que sempre fizeram, ou seja, colher o néctar das flores e construir colméias. O homem, por outro lado, ser pensante que assim se auto-denominou – embora dentre eles hajam níveis diferentes de inteligência – , não só é capaz de se auto-analisar, como não consegue deixar de fazer isso a todo momento. Tendo em vista isto, é impossível ao ser humano permanecer o mesmo a vida inteira. É esperado socialmente – inclusive dentro da instituição família – que haja coerência, entretanto, a coerência aqui seria não pensar – o que é impossível – , não ter condições de elaborar um raciocínio até a sua conclusão, ser teimoso ou submeter-se a si e o seu próprio pensamento, ou melhor, confiar o pensamento lógico à outras pessoas, cujas interpretações e conhecimento acerca da vida e da consciência da mesma, são diferentes e ou de graus variados. Entretanto, mesmo que uma espécie siga um comportamento sem questioná-lo e a outra questione sempre o comportamento contemporâneo, mudando-o constantemente, a vontade, tanto da abelha como a do homem, é sim a de construir a melhor colméia ou país possível, onde haja um clima favorável para se preservar a vida, estar em paz com os seres vivos e com o mundo. Existem várias formas de se fazer isso, mas é impossível questionar o desejo de cada um – que é o mesmo – das diferentes formas “ideais” que as pessoas assim consideram para alcançá-lo.
Portanto, mesmo que a guerra dos sexos tenha ficado para trás – pelas duas posições serem extremas – a tomarei como exemplo da disputa que a sociedade trava nessas eleições, no Brasil: as abelhas esquerdistas, querem que a abelha-rainha seja fêmea e que as abelhas menos capazes ou dispostas, tenham favorecimento ou acesso fácil ao néctar em detrimento à construção da colméia, além de quererem que a colméia seja inclinada para a esquerda; as abelhas direitistas, querem que a abelha-rainha seja macho, que fortaleça a estrutura da colméia e que as abelhas mais dedicadas sejam proporcionalmente recompensadas. Eu? Tenho consciência de que não existe a menor possibilidade da anarquia se tornar uma realidade nas próximas décadas ou séculos e de que morrerei, sem dúvida nenhuma, sem presenciar àquilo que, em meus sonhos despersonalizados, eu chamo de paraíso fora do estreito comportamental. Apenas não quero uma abelha-rainha, seja ela qual for. Poderão questionar a índole de alguém cujo senso de justiça não se restringe apenas à própria espécie cuja lei protege? Se ousam questionar isso, então, peço que ao menos respeitem a minha natureza, pois não se trata da minha vontade ou preferência, mas da minha identidade e despretensão.
sábado, 30 de junho de 2007
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