sexta-feira, 29 de junho de 2007

Puta que pariu 7

Durante toda a existência da humanidade (exceto quando o homem ainda era iluminado por seu biotipo selvagem) teve-se sempre sobre a mesa sagrada de uma igreja com a figura enigmática e respeitada de um cristão com uma pintura eclesiástica mediocremente plagiada por algum artista inspirado em algum tolo renascentista, – e digo aqui “tolo” para definir tal artista pois só um pertencente a essa classe desafortunada de inteligência poderia perder seu tempo com esse tipo de bobagem - nas suas costas e um cálice nas mãos, eleva-se uma palavra superestimada em todas as suas dimensões em todos os cantos do mundo – embora ele seja redondo – e sendo totalmente inútil por seu próprio significado: o “amor”. Comentar qualquer coisa a respeito desse tal amor é um despropósito e uma falta de respeito com até mesmo o mais imbecil dos leitores se não tomarmos como comparação qualquer sentimento senão o ódio. “O que o amor contrói, o ódio em poucos momentos destrói.” Daí vê-se facilmente o tamanho poderio dessa palavra, o “ódio”. Alguém que ama, torna-se vulnerável e fraco, e estima tudo o que tem e todas as pessoas que conhece, inclusive àquele que a odeia – e se, de fato, não amá-lo, não se dará por satisfeita até conseguí-lo, isto é, quem mantém-se ligado a esse sentimento é incapaz de fazer outra coisa senão amar e, então, é pobre de sentimentos e metas. Portanto, está sempre preso mas dificilmente fica desolado. Em contrapartida, até mesmo aquele que odeia profundamente alguém ou a maioria dos que conhece, dá-se o valor e escolhe algo melhor para si, por também, involuntariamente, achar-se digno de fazer tal seleção que tanto pode ser chamada de seleção natural como não pode: não pode pelo fato de que as pessoas que odeiam, não pegam as coisas de que dispõe, preferem muitas vezes fazer um grande esforço a ter que contentar com aquilo que não corresponde com o que esperava; por outro lado, pode, uma vez que tudo que é feito de maneira verdadeira, é considerado natural, e não artificial como faz quem ama. A esse indivíduo, as poucas pessoas que não odeia, achará que esse simples fato já significa gostar. Se não demonstrar isso e apenas manter o respeito, isso já é um gesto muito mais puro e sincero do que aquela manifestação clara de falsidade e sem-vergonhismo dos amantes que abraçam a tudo e a todos. A isso se chama podridão e conformismo, características jamais tidas por pessoas que odeiam. Nas duas classes existem os maníacos que excedem-se com suas sensações e tendenciam suas ações movidas por um péssimo julgamento. Todavia, aqueles equitativos de ambas as classes sempre estarão marcados por isso: os que odeiam por serem ecléticos; os que amam, por sua estagnação.
O senhor das suas virtudes é sempre o que odeia e ele carrega consigo sempre a verdade. O que ama é um predador disfarçado de presa, é mentiroso. Quem ama mente para que tudo fique bem, quando, de fato não está. Mente para quem ama achando estar fazendo o melhor, – diz ele para o melhor de quem ouve a mentira, embora o beneficiário seja sempre o mentiroso – é feliz com qualquer um mas não consegue fazer os outros se sentirem felizes. – “úteis”, sim, “úteis!!” ou não sabia você que é isso o que estão dizendo por aí que é ser feliz? – Do outro lado temos quem odeia que adora fazer mal a quem detesta e usa da verdade para isso. Quanto mais perversa a verdade, mais crédito merece o seu contador. Há quem diga que este não merece crédito por não fazer isso pelas boas intenções, mas pelas más, assim eu lanço a seguinte pergunta: e isso não é perfeito? Não é o mesmo que ama que mente, que não presta e que é amado por todos? Amado por quem não sabe amar? Quem odeia, sabe amar! Mas aquele que ama, jamais aprenderá a odiar – longe disso, desejará nunca conseguir tal feito, exceto aquela pessoa que tem os braços bem abertos, olhos de águia e sensibilidade de encontrar através da fera – o que odeia – a delicadeza em pessoa. A isso se chamará descobrimento e a sua pessoa se denominará descobridor: aquela que não ama e tampouco odeia, aquela que deseja um tanto indiferente alguma coisa, aquela que não se pode pôr rótulos, aquela acima de qualquer suspeita. A esta pessoa é atribuída a missão de navegar por águas desconhecidas e correr inúmeros riscos nas tempestades que enfrentar e nos gigantescos monstros marítimos – presos nas cabeças dos ignorantes – em troca de uma simples possibilidade de descobrir o paraíso em quem odeia. Ele pode ser mata fechada, mas é firme e jamais afundará como Atlantis. Poderá naturalmente desaparecer por uns tempos como o falso e trivial sentimento de amor dos que dizem amar, mas jamais desaparecerá naqueles que não têm medo de dizer com veemência que odeiam. A memória esquece e perdoa antigos amores. Mas, se a memória, por um lado, é falha, o orgulho, definitivamente não o é. Não trata-se apenas de um jogo de palavras, trata-se de uma regra a ser reconhecida e utilizada. Aos que dizem ser impossível amar a quem odiamos, o meu sincero desprezo.

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